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“A saudade é a alma que fica de um amor que nunca morreu de ausência.”

Era o primeiro e último encontro. Era o primeiro e o último beijo.


Era alegria de um início e a tristeza de um fim.

Era o contentamento da presença e o descontentamento da saudade.

Ela já previa a dualidade de sentimentos em único instante.  “Como viver um tanto em tão pouco tempo? Será possível isto?

Ninguém suportaria experimentar extremos de uma só vez. É o mesmo que saborear o doce e ao mesmo tempo ser invadida pelo gosto amargo e rançoso. Não…pior! É o mesmo que sentir a magia da vida e o dissabor da morte.”


Eram seus pensamentos relampejando e pesando nas nuvens de pena de seu travesseiro. Estava se formando uma tempestade de insônia naquela noite. Houve “previsão do tempo” para tamanho vendaval? Sim! Pois ela sabia que na manhã seguinte o sol a chamaria para viver a intensidade do amor em apenas um único dia.

Então, era necessário antecipadamente chover palavras de incertezas e trovoar medo dentro dela para nascer um lindo dia de coragem e de palavras silenciosas das certezas do coração. 

O dia raiou e o coração acelerou. Vestiu-se de alegria, mas com a alma nua de ansiedade. Partiu em busca da felicidade já doente e à beira do leito de óbito.


Chegou nervosa no aeroporto. Ela estava à procura dele. Pensou em comer alguma coisa antes que angústia a consumisse por completo. Mas desistiu. Pois queria mesmo era desjejuar cada pedaço da iguaria que seriam aqueles minutos.  Com fome do tempo, sentou-se e decidiu aguardar para ser “servida”. Distraída, ouviu a voz dele chamando pelo seu nome. Levantou-se com o coração na mão. Era o seu único presente.

Então… olharam-se de perto pela primeira vez depois de anos de distância. O sorriso foi inevitável. 

– Que bom te ver! – disse ele após um suspiro longo de alívio e tocando delicadamente o rosto dela como quem quisesse ter a certeza de que era mesmo de verdade. Enquanto isto, ela não conseguia dizer uma palavra sequer. Pois seus olhos  costumavam falar.

As palavras não cabiam naquele delicioso segundo. Ela olhava cada detalhe de sua face. Seus olhos estavam mergulhados no dela e seus lábios apertavam-se e  umedeciam-se, como criança desejando algo doce.

Com um gracioso sorriso de entendimento,  ela se aproximou dele, pegou em suas mãos e sussurrou em seu ouvido:

– Fecha os olhos!

Rendido, obedeceu ao seu pedido.

Ela inspirou lentamente o cheiro de perfume amadeirado de seu pescoço. E ele sabia que a lentidão poética dela provocava sensações, uma expectativa demorada para beijá-lo. Afinal, degustar o tempo com calma era preciso. Pois seu sabor certamente ficaria impregnado eternamente na memória de seus corações.

Estando face a face, ela pediu-lhe que abrisse os olhos:

– É preciso viver para sentir! Mas também quero um amor que me faça sentir viva, mesmo que morra de brevidade. 

Então, depois de ter sentido o cheiro apetitoso do tempo. Ele não suportou de tanta fome e a beijou como se nunca houvesse beijado (sim…era o primeiro)… como se fosse o último beijo (sim…era o último)!

Pronto! Acabou! Doeu! Morreu? E amores verdadeiros e boas lembranças morrem?

A saudade é a alma que fica de um amor que nunca morreu de ausência. 





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