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“Se assustei, isso diz mais sobre o Brasil do que sobre mim”, diz Maria, desclassificada do “BBB 22”

Maria BBB22 capa

Não tem mulher que pega mulher nessa casa?“, disparou Maria, logo no início do BBB 22. Cria da Cidade Alta, comunidade de Cordovil, Zona Norte do Rio, a atriz e cantora de 21 anos entrou no programa para causar. E causou. Cheia de potência, livre, leve, solta e bissexual, beijou Lina, transou com Eliezer, disse para o Brasil inteiro ouvir que estava com saudade de seu vibrador. Mulher do seu tempo, sem medo de ser feliz. Nem de se expor.

Diante de milhões de espectadores, Maria revelou ter passado por agressões em relacionamentos tóxicos, contou que enfrenta a depressão desde os 13 anos e que, por isso, quase virou alcoólatra. Fez promessa para parar de beber caso tivesse um ano bom. Não teve.

A carreira de artista —, que começou aos 7 anos no teatro, seguiu no projeto Poesia Acústica, quando assinou contrato com gravadora e alcançou quatro milhões de visualizações no Youtube com a música “Toda vez”, incluiu apresentação no Rock in Rio e culminou com participação na novela “Amor de mãe” — andava em baixa. Estava prestes a desistir da promessa quando recebeu o convite para participar do programa.

— Estava preocupada, sabia que era uma oportunidade grande e fui fazendo de tudo para me manter lá dentro — diz ela.

Só que Maria foi traída. Por si mesma. Por uma atitude pela qual muitas mulheres pretas são acusadas quando se defendem do racismo cotidiano no Brasil: a agressividade. Maria deu uma baldada na cabeça de Natália. A agressão foi péssima. E o povo, com razão, não perdoou. As redes foram inundadas de críticas por causa de sua atitude, e Maria acabou expulsa justamente do BBB.

Nessa conversa de meia hora pelo telefone, Maria diz que foi mais fácil exercer sua liberdade com menos gente ao lado para julgá-la, analisa a mudança na atitude do público, que a acolheu, mas cancelou Karol Conká no “BBB” passado e conta ainda que não foram poucas as vezes que foi menosprezada “por ser mulher, preta e da favela“.

Agora que baixou a poeira, como você está?

Estou bem, fui muito acolhida, mais do que esperava. Quando recebi essa chuva de carinho das pessoas que não me conhecem e voltei para o meu lar, para quem me conhece de verdade, fiquei calma e leve para lidar com tudo que viesse. Lá dentro, a gente fica ilhada.

Você foi acolhida, enquanto Karol Conká foi cancelada por atitudes no BBB 21. Por que acha que isso aconteceu? O público amadureceu?

Não sei se dá para comparar, cada um tem a sua trajetória, mas acho que o público entendeu que jogo é jogo. Que quando acaba, a gente tem uma vida aqui fora. Já sofri as consequências na desclassificação.

Como sai do BBB? Aprendeu algo?

O que mais mudou dentro de mim foi a liberdade, essa que as pessoas tanto admiraram lá dentro. É algo que eu estava em busca. É muito doido eu ter tido a oportunidade de ser eu mesma na frente do Brasil inteiro. Acho que é porque, lá dentro, só tem mais 19 pessoas; aqui fora, há muito mais interferências. Lá, eu não precisava me preocupar tanto com que as pessoas pensavam de mim, só tinha eu mesma.

Você é cria de uma comunidade, enfrentou dificuldades e conquistou um lugar que talvez sequer imaginasse chegar. Como lidou com a frustração interna de ver um sonho ruir ao ser expulsa do programa?

Não senti frustração, senti arrependimento naquele momento. Depois, fiquei me reavaliando para entender o que me levou a chegar naquele nível de alteração. Digeri, e quando recebi a notícia da expulsão, aceitei na hora sem entender o que poderia me esperar aqui fora. Quando saí, fui acolhida pela direção, pelas pessoas. Era meu tempo para viver lá dentro, fiz tudo que podia fazer.

Está fazendo terapia? Que questões está processando?

Faço há um ano e interrompi pouco antes do programa. Saí do “BBB” e voltei direto. Minha terapeura assistiu ao programa e avaliou as coisas que eu tinha mais dificuldade. Inclusive, ser essa pessoa liberta era algo que a gente vinha trabalhando. Sempre escondi minhas emoções. Sobre o momento específico (a baldada em Natália), reconhecemos que foi algo pontual, devido à dinâmica do programa, que potencializa as emoções. Lá dentro, eu não tinha muita noção do que tinha feito. Quando assisti às imagens, entendi que foi um impulso. Isso não é comum aqui fora.

Mas já tinha acontecido algo parecido com o Arthur, quando você deu um tapa na testa dele ao colar um papel no “Jogo da Discórdia”…

Mas não era sobre as pessoas, o Arthur ou a Natália, era sobre a minha reação naquele momento. Foram duas situções pontuais. E o “Jogo da Discórdia” não é uma situação do dia a dia. Aconteceu, mas passou.

A agressividade é uma resposta na defensiva para o racismo cotidiano que mulheres pretas vivem cotidianamente. Vem daí a origem da sua atitude?

Eu diria que foi mais um ato impulsivo. E veio por vários motivos: a juventude, o “Jogo da Discórdia”. Eu sabia que tinha tendência a me alterar, mas chegar no ponto em que cheguei… Tenho tendência a esconder minhas emoções, estou aprendendo a me soltar e, nesse processo, a gente acaba não ponderando. Sempre fui oito ou oitenta, mas sempre mais oito que oitenta. Mas sempre precisou se impor.

Sempre precisei me impor, e a forma como sou interpretada é algo que parte da sociedade, da forma como nos desenham, que é algo estrutural do Brasil, do mercado em que trabalho. Sempre me menosprezaram e duvidaram da minha capacidade. Por ser uma mulher, por ser uma mulher preta também, por ser da favela e por ter a consciência da minha sexualidade e sensualidade. Tudo choca. O fato de eu demonstrar quem eu sou e ter consciência de não querer me diminuir para caber nos espaços e assim ser aceita. É importante eu não confundir o que eu penso sobre mim com o que pensam de mim para que isso não interfira na minha jornada de autoconhecimento.

Rolou uma culpa maior por você e Natália serem duas mulheres pretas que se identificam nesse lugar, que muitas vezes batalharam para não serem canceladas na vida, e poderiam estar se apoiando?

Não uma culpa. Acho que é um assunto muito delicado, que não dá para ser debatido na Internet, numa folha de jornal ou em 15 minutos de um programa de TV. Minha relação com a Natália sempre foi de altos e baixos e muito pelos atravessamentos de cada uma. Reduzir ao fato de serem duas mulheres pretas reduz a nossa luta. É um lugar coletivo, mas individual também. O coletivo de pessoas pretas são várias pessoas diferentes, com opiniões e personalidades. Reduzir as duas personalidades a esse acontecimento invalida a nossa luta.

Vai pedir desculpas à Natália aqui fora?

Já pedi desculpas. Quando ela chegar aqui fora e ver as coisas que aconteceram, vai partir dela querer ou não conversar comigo. Se ela quiser uma conversa, vai ter. Estou aberta a qualquer pessoa do programa.

Você disse que aquele momento não te define. O que define Maria?

O que me define é minha a liberdade e intensidade, a honestidade comigo mesma.

Você entrou no BBB causando. Beijou Lina, transou com Eliezer, falou que sentia saudade de um vibrador. Até que ponto isso era genuíno ou era uma estratégia que surfafa no feminismo?

Jamais me reduziria a uma bandeira estratégica. Sempre fui uma mulher livre. O fato de eu ter esse entendimento da causa (feminismo), usar isso ao meu favor e de outras mulheres é importante, mas não nessa linha de estratégia. Entendo que a minha liberdade foi inspiradora, mas bato mais na tecla de a gente ter oportunidade de dizer não, de se preservar. O fato de querer beijar na boca e usar vibrador é totalmente genuíno. Jamais faria isso para ganhar biscoito.

O Brasil está preparado para uma mulher como Maria?

Se assusta o fato de eu ser como sou, aí eu acho que é mais sobre o Brasil do que sobre mim. O Brasil é muito grande e complexo, sempre vai ter gente para me abraçar e alguém para soltar a minha mão.

O fato de terem procurado o seu pai para dar um aval (ou não) sobre o seu comportamento livre entrega o machismo da sociedade brasileira?

Acho que sim, mas também é a opinião de um pai sobre uma filha. Também rola essa aprovação. Não é todo mundo que tem uma filha num programa em rede nacional fazendo as coisas que eu fiz. Eu fiquei muito feliz, meu pai sempre me aceitou do jeito que eu sou.

Como foi sua infância na Cidade Alta? Contou no BBB que já teve que escolher entre cortar o cabelo e comprar comida. Como era a sua realidade?

Essa realidade já era morando no Recreio, sozinha. Saí da Cidade Alta com 17 anos, morei na Tijuca. Após o Poesia Acústica, minha família saiu comigo, mas ainda com o salário do meu pai, de gari e massoterapeuta. Na Cidade Alta, tive uma infância muito boa, muito moleque, de brincar na rua. Ao mesmo tempo, tinha o atravessamento de morar dentro de uma favela. Meus pais tentavam me proteger, me criar como uma princesa lá dentro. Teve muita dificuldade financeira e de segurança, mas não guardo lembranças ruins, só boas memórias.

Contou também que sofre crises de depressão desde os 13 anos. Como luta contra a doença?

A gente consegue melhorar, mas depressão não tem cura. Aprendi a lidar com as situações, entender o que me dava gatilho para voltar às crises. A terapia foi fundamental para colocar para fora, procurar válvulas de escape, coisas que me deixam feliz e me tirem do estresse e da angústia. Trabalhar, fazer massagem, estar perto da natureza e com amigos que amo me ajuda.

Quais são os planos profissionais agora?

Hoje (a entrevista foi feita terça-feira, 22), faz uma semana que eu saí do programa. Ainda está bem recente. Estamos trabalhando para estruturar e dar continuidade ao trabalho que eu tinha feito na música e no audiovisual.

Quem você gostaria que ganhasse o BBB?

Gostaria que a Lina ganhasse. Acho que é a pessoa mais incrível da casa.

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