Se eu pudesse voltaria para alguns momentos do passado…

5min. de leitura

Ah, como eu gostaria de voltar no tempo para cantar os cantos que não cantei!



Voltar! Voltar no tempo! Vontade que ponteia, em silêncio, a penumbra da alma de muitos. Tanto que, os que foram muito felizes ou muito tristes, desejam, como eu:

Voltar para experimentar de novo a felicidade tida, quando nunca mais se experimentou outra igual.  Voltar, com um  “kit solução”: uma caixinha, contendo nossa experiência e maturidade, plena da sabedoria que nos traz a alta idade, para amenizar a dor profunda, que sacudiu nosso mundo, um dia.

Voltar para o leque de opções, e escolher o que foi impedido e zombado, cruelmente, por alguém que parecia saber mais do que eu.  

Voltar e fechar os ouvidos para o falatório, para os apelidos pejorativos, importando-me apenas em saber quem sou.


Voltar para cantar, mais cantos do que cantei. Bem alto! Mesmo sabendo que não haveria aplausos, mas, sim, o espanto condenatório. Que importância haveria? Se, em vez de canto, fosse pranto alto,  condenariam do mesmo jeito…

Voltar para, na surdina, pesquisar aquilo que me foi impedido saber, as revelações vagas, reticentes, sobre os pecados mortais, carnais e humanos.

Voltar para proibir o proibido que me impuseram. Porque, nele, estavam as respostas que me ensinariam a evitar meus erros.


Voltar e namorar todos os pretendentes, até saber qual seria o homem ideal, pois ninguém tem bola de cristal.

Voltar para abraçar aquela pessoa que disse “até já” e nunca mais apareceu; e, na ausência, fez-se notar como especial.

Voltar para apertar a mão do adeus e chorar, na birra de uma criança com as faces escorridas de comoção.

Voltar para poder correr atrás daquela pessoa que não quis mais minha amizade, por um erro tolo da juventude. Desculpar-me, explicar-me, e se de tudo não tiver valido, gritar: Não vá!

Voltar para chorar no escuro, chorar no claro, chorar quando sentisse vontade.

Voltar para sorrir pelas pequenas e grandes coisas, por coisa nenhuma, ou apenas pelo fato de que não havia nenhuma dor para chorar.

Voltar para dançar na chuva, no sol, na calçada, na solidão, ou na platéia.

Voltar para retirar algumas palavras ditas. Apagar as enviadas escritas, e substituí-las por outras.

Voltar para ser menos orgulhosa. Menos tensa. Menos tímida. Menos medrosa, e menos hermética.

Voltar para ser mais preguiçosa. Mais divertida. Mais colorida. Mais amiga. Mais carinhosa. Mais generosa… e amorosa.

Sim, eu voltaria! Para ser menos, naquilo que me excedi, e ser mais, nos momentos em que fui tão menos!

Que não entardeçamos, arrastando, pela vida, bagagens de arrependimentos ou frustrações. Em algumas coisas há consertos… outras, perdem-se no tempo. E fica o atroz lamento pelo instante desperdiçado, e nunca mais reavido!

Nossa vida é uma estrada longa, e sem retrocessos.

Não há uma guinada de trezentos e sessenta graus para voltarmos ao início de quem éramos.

O tempo é inexorável avançando sem trégua, e não nos oferece um intervalo, para a partida do segundo tempo.

Nossos malfeitos, ou algo nunca feito, são bordados que vão ficando na alma, servindo como experiências, para fazermos melhor no presente.

Mesmo assim, maduros e experientes, não estaremos livres de errar. Não existe essa imunidade à venda, nos frascos das farmácias. Temos apenas que saber lidar com nossas falhas e fraquezas humanas, sem desespero, cobranças, e autoflagelação. Isso, a vida me ensinou: só não erra aquele que decidiu ser apenas um observador, sem nada fazer.

Sim! Se eu pudesse voltaria para alguns momentos do passado. Quem, nesse mundo de Deus, não gostaria?   

Mari Marques

_______________

Direitos autorais da imagem de capa: narstudio / 123RF Imagens

Baixe o aplicativo do site O Segredo e acompanhe tudo de pertinho. Android ou IOS.





Deixe seu comentário

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.