12min. de leitura

Sem confiança, paciência e esperança, o amor não resiste!

A paciência, finda. A confiança, quebra, e as esperanças, morrem. Sem essas três coisas, o amor não resiste, e tomba de cansaço!

Dizem que o texto sucinto é melhor que o texto prolixo. Em parte concordo.



Há textos curtos, e tão bons que, ao terminá-los, fica-me a sensação de fome não saciada.

Nos textos longos, se o início não me prende, certamente o final me deixará com o sentimento de que perdi meu tempo. Então, paro. Às vezes, por mera curiosidade, ou levada pela expectativa de ser surpreendida, vou até o fim. Enquanto leio, vou dizendo a mim mesma que a escrita ruim pode melhorar, e que pior não pode ficar. Mas fica!

Conclusão: no epílogo, estou bronqueada. Não com o autor, mas comigo mesma, por ter insistido em algo que meu instinto disse pra parar.


Isso ocorre quando assisto um filme.

E, também, com os humanos.

Há pessoas que aparecem em nossas vidas e, no pouco que dizem, dizem tudo. Como um poema: belo, curto, e inesquecível.


E outras são textos longos, desconexos e cansativos. Tive muito, desses, em minha vida. Aquele humano(zinho), ao qual dei guarida, comida, roupas, apoio, palavras de incentivo, de esperança, e que, depois de um tempo, descobri que joguei tudo no lixo: a comida, a guarida, as palavras de bom senso, e minha paciência…

Conclusão: por fim, estou bronqueada. Não com a pessoa, mas comigo, por ter levado adiante uma causa perdida, acreditando que fosse melhorar.

Isso me ensinou a duvidar da situação que o “necessitado” me esclarece, com o olhar escurecido de tristeza, e a voz embargada. Ele possui a arte de enganar. Adquiriu o diploma da mentira, nas escolas das ruas, para atingir pessoas sensíveis, assim como eu. Ele traz, na mente, um arquivo de sinopses poderosas. Feitas na medida. Na dosagem certa, que irão mexer com a minha piedade.

Depois das várias experiências com esse tipo de engano, também aprendi a arte de me precaver, sondando, e tentando adivinhar o verdadeiro conteúdo da história que se esconde atrás da face de “coitadinho”. Ensinou-me a ponderar sobre a razão verdadeira, que levou aquele jovem a estar naquela situação calamitosa.

O desvalido — e os que se encontram na mesma situação — apresenta uma longa lista das coisas básicas, e necessárias, para viver decentemente, e que ele não tem. Não tem ninguém que se importa com ele. Não consegue trabalho, pois não há experiência, em seu currículo. Não tem nenhum parente. Não tem onde morar. Abandonou a escola, pois tinha que correr atrás do que comer, fazendo uns biscates aqui e ali.

Aí faço a pergunta, a que julgo ser a mais importante de todas: e sua mãe, onde está? Para evitar constrangimento, não pergunto sobre o pai, pois muitos não sabem quem é; outros, não sabem onde está. E, alguns, com certeza sabem, mas preferem fingir que não.

As histórias sofríveis são quase sempre parecidas. Análogas. Saiu de casa porque a mãe amasiou-se com um homem, e o ambiente ficou insuportável. Saiu porque a mãe bebia, e o espancava. Saiu porque a mãe não o amava, e o expulsou de casa. E há outros que chegam à disparatada falta de consciência: matam a mãe, e toda a família. Não sobra nem a vovozinha.

Infelizmente, o humano não é um texto longo, que se lê em menos de uma hora. Não é como uma fruta estragada que você pode salvar, aproveitar a banda não contaminada. Leva-se uns dias, ou meses, para descobrir que ele é preguiçoso, tem amigos esquisitos, bebe e fuma. Que sai cedo, dizendo que irá procurar trabalho, e passa o dia e parte da noite jogando, numa lan house. Com o dinheiro que lhe dei para o ônibus, e o lanche.

E, quando já se sentir completamente instalado, achando que dali não sairá mais, pois tem uma trouxa como tutora, começará com as malcriações, mostrando que, além de todos os defeitos e preguiça, também é um ser grosseiro, de língua afiada. A máscara de “coitadinho” cai, e vemos apenas um pequeno monstro, insensível, sem sonhos, e sem ideais.

Mesmo assim, eu insisto. Acredito que, a educação que dei para meus filhos, vai funcionar, no garoto. Não funciona…

A verdade nua e crua que aprendi, a duras traições, é que, se uma mãe não quer mais saber do filho, e o abandona por completo, provavelmente sua paciência já chegou ao limite. Suas esperanças morreram, e o amor também. Sim, o amor se desgasta, diante de tanta rebeldia, preguiça, problemas na escola, brigas de rua, e vícios. Vai suportando, enquanto ele é criança; levando com a barriga, enquanto é adolescente, mas, quando chega aos dezenove ou vinte anos, diz: BASTA!

Tentar desempenhar o papel de mãe zelosa e preocupada, dando-lhe roupas limpas, comida, e uma cama quentinha, não despertará nele nenhum sentimento de filho. Ele não deu valor à mãe verdadeira. Coloca-a como bode expiatório, culpando-a  por todas as suas mazelas… Por que daria valor a mim, que conheceu recentemente? Uma quase completa estranha?

Aprendi a não tentar ajudar alguém, acreditando em suas palavras. Ajudar, sem verificar se são fidedignas, é pura tolice caritativa-cristã. É puro desgaste físico, mental, e ainda abala a fé que deposito em Deus, achando que aquele ser humano veio parar em minhas mãos porque é a vontade do Todo Poderoso que eu o ajude.

Como um texto longo, vamos lendo a pessoa, virando as páginas, esperando que nos surpreenda, que nos retribua, que seja um humano normal, estudioso, trabalhador, amigo, e feliz.

E, por fim, quando você pensa que já viu tudo, pensa que está ajudando e que ele só precisa de um tempo para mudar, vem a maior decepção de todas: você descobre que, na sua ingenuidade e no afã de consertar um jovem, você entrega as duplicatas das chaves de sua casa, em confiança, a qual ele não merece. 

Ele não é ladrão, vou pensando. Ele tem vários problemas, mas ladrão não é. Ele jamais faria algo para me prejudicar. Ele não é tão tolo, a ponto de jogar fora a única pessoa que realmente está se importando com seu futuro.

Um belo dia, ele some. Desaparece, levando as melhores roupas que você deu, e um cobertor. Sem agradecer, sem dizer nada, sem lhe encarar e dizer: “desculpe-me, mas não dá para eu ser o que você espera de mim. Vou ficar pelo mundo mesmo. Vou lhe poupar de todo o transtorno e despesa”.

Dias depois, chega uma carta da justiça. O “coitadinho” lhe processa, alegando ter sido seu empregado e não ter recebido nada. A casa, onde mora agora — se é que se pode chamar de casa um lugar fétido e desmoronando —  pertence a um de seus amigos, que será testemunha contra mim, no processo. O “amigo”, que o acolhe de braços abertos, conta com a  “bufunfa’, que irão me arrancar, e que não tenho, para gastar na farra.

Por sorte, esse foi um caso à parte, com que consegui lidar, provando que focinho de porco não é tomada. Não perdi muito. Só o tempo dedicado, e a morte de minhas esperanças. Os outros? Uns me roubaram, alguns saíram sem dar um “até breve”.

Passado um tempo, eu soube, por terceiros, que nenhum deles se deu bem.

Só houve um que me agradeceu. Só esse, por um curto tempo, reconheceu o que eu estava tentando fazer por ele, e me retribuía. Ao chegar do trabalho, à noitinha, encontrava a casa limpa, roupas lavadas, janta pronta, e o suco que eu gostava.

Só esse me fez chorar, quando morreu. A droga apodreceu, também, a banda boa. A droga o venceu, infelizmente.

Há histórias reais que terminaram felizes. No filme “Sonho Impossível”, com Sandra Bullock, o rapaz se deu bem. Se deu bem… porque já tinha um caráter feito para se dar bem. O meio em que viveu não o corrompeu. Não tinha vícios, e era honesto. Fica fácil trabalhar em cima de uma terra adubada, pronta para ser plantada.

As terras que vieram parar em minhas mãos eram todas cheias de pedregulhos, e pragas.

Foi em vão, tentar semear as boas sementes.

Se ao menos uma única semente houvesse germinado, nos desertos que lancei, eu diria hoje: adotem um jovem, e experimentem a alegria de haver resgatado um ser humano da ruína.

Experimentem a emoção de tornar o vencido em vencedor. Experimentem a alegria de ter mais um filho no coração.

Mas, não posso…

Há uma geração, caminhando pelas calçadas, com cara de “coitadinhos”, que rejeitaram seus verdadeiros pais, e escolheram ser filhos do mal. Rejeitaram a luz e abraçaram as trevas. Parecem-se com o estouro de uma manada de bois, seguindo os passos um do outro, em direção ao precipício.

São alérgicos à verdade. São alérgicos a qualquer padrão, ou caminho, que os tornará em cidadãos vencedores e respeitadores da lei. São semelhantes nas transgressões, no vestir, no palavreado chulo, e na burrice aguda.

Hoje, sou cautelosa. Sei que corri riscos, e não faço e nem farei mais isso. Ao ajudar, bem poderia ter causado minha própria ruína. Hoje, qualquer piedade que sair de minhas mãos será do portão para fora. Aprendi que será inútil dividir meu teto com quem gosta de chafurdar no chão.

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Direitos autorais da imagem de capa: dolgachov / 123RF Imagens

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