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Sem educação, os homens “vão matar-se uns aos outros’, diz neurocientista António Damásio

“Educar massivamente as pessoas para que aceitem os outros”, porque “se não houver educação massiva, os seres humanos vão se matar uns aos outros”.

O neurocientista português António Damásio fez um discurso recentemente que tem chamado a atenção de muitas pessoas pelas verdades expressas com muita sensatez.


No lançamento do seu novo livro “A estranha ordem das coisas”, na Escola Secundária António Damásio, em Lisboa, ele falou para um auditório cheio que precisamos educar a nós mesmos e contrariar os nossos instintos mais básicos, que nos impelem a pensar primeiro na nossa sobrevivência.

“O que eu quero é proteger a mim, aos meus e à minha família. E os outros que se tramem. […] É preciso suplantar uma biologia muito forte”, disse Damásio associando este comportamento a situações extremas, como preconceitos e discriminações. Ele acredita que a maneira de combater os fenômenos recorrentes de intolerância “é educar maciçamente as pessoas para que aceitem os outros”.

Para António Damásio, o que diferencia nós, os seres humanos, dos restantes animais é a cultura: “Depois da linguagem verbal, há qualquer coisa muito maior que é a grande epopeia cultural que estamos a construir há cem mil anos.”


Ele ainda acredita que o sentimento que chama de “o elefante que está no meio da sala e de quem ninguém fala” – é fundamental no surgimento das culturas. “Os grande motivadores das culturas atuais foram as condições que levaram à dor e ao sofrimento, que levaram as pessoas a ter que fazer alguma coisa que as cancelasse”.

“Os sentimentos, aquilo que sentimos, são o resultado de ver uma pessoa que se ama, ou ouvir uma peça musical ou ter um magnífico repasto num restaurante. Todas essas coisas nos provocam emoções e sentimentos. Essa vida emocional e sentimental que temos como pano de fundo da nossa vida são as provocadoras da nossa cultura.”

Em seu livro “A estranha ordem das coisas”, que considera a continuação de sua obra “O Erro de Descartes”, ele vai a fundo em sua metodologia explicar que até mesmo microrganismos mais básicos organizam-se entre si para que consigam a sobrevivência.


Durante a palestra, ele explicou aos muitos estudantes que o assistiam, que as bactérias não têm sistema nervoso nem mente mas ainda bem “sabem que uma outra bactéria é prima, irmã ou que não faz parte da família”.

Ele acrescenta que quando as bactérias são confrontadas como um inimigo, como um remédio antibiótico “têm de trabalhar solidariamente”, fazendo a observação de que, ainda nessas situações, algumas bactérias não escolhem fazer a sua parte.

“Quando as bactérias (que trabalham contra o inimigo) se apercebem que há bactérias vira-casaca, viram-lhes as costas”, disse Damásio, explicando que as reações das bactérias são ao nível de um ser que possui “uma só célula, não tem mente e não tem uma intenção”, ou seja, “nada disto tem a ver com consciência”.

É essa evidência que faz Damásio chegar à conclusão de existe “uma coleção de comportamentos – de conflito ou de cooperação – que é a base fundamental e estrutural de vida”.

Muitas pessoas acreditam que o problema é o excesso de abordagens emocionais, e não racionais. E, contrariando as pessoas que pensam desse modo, ele cita o exemplo da Catalunha: “O problema é ter mais emoções negativas do que positivas, não é ter emoções.”

“O centro do livro está nos afetos. A inteira realidade dos sentimentos e a ciência dos sentimentos e do que está por baixo dos sentimentos. O sentimento é a personagem central. É também central uma coisa que me preocupa muito, o presente estado da cultura humana. Que é terrível. Temos o sentimento de que não está apenas a desmoronar-se, como está a desmoronar-se outra vez e de que devemos perder as esperanças visto que da última vez que tivemos tragédias globais nada aprendemos. O mínimo que podemos concluir é que fomos demasiado complacentes, e acreditamos, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, que haveria um caminho certo, uma tendência para o desenvolvimento humano a par da prosperidade. Durante um tempo, acreditamos que assim era e havia sinais disso”.

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Direitos autorais da imagem de capa: Luiz Munhoz





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