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Sem-teto espancado diz perdoar personal e revela “medo de ser incriminado”

Foto: Arquivo pessoal
Sem teto espancado diz perdoar personal e revela medo de ser incriminado

Givaldo Alves de Souza, 48, viu a vida mudar após a disseminação das imagens de uma câmera de segurança que o mostram sendo espancado por um personal trainer em Planaltina (DF), que o encontrou com a esposa dele em um carro, há duas semanas.

Em entrevista, o homem, que está em situação de rua na capital do país desde dezembro do ano passado, revelou perdoar quem o agrediu, diz ter medo de ser incriminado e que tem ciência de que sua situação poderia ser bem pior caso não houvesse prova visual da ocorrência. “Deus é tão maravilhoso que fez aquela mulher me parar debaixo de uma câmera”, disse.

Souza, que hoje está em um abrigo de Ceilândia (DF), ainda se recupera das lesões. Ele contou que quebrou uma costela e tem dificuldades de andar e respirar e que a dor, no hospital era “insuportável. Seja para virar na cama, seja para levantar ou para dar um passo”, conta.

A preocupação ainda maior enquanto esteve internado, desde o dia 9 de março, no entanto, era outra. “No hospital, senti medo do que poderiam me acusar”, pontua. Ele disse que conversou com “dois modestos senhores”, que ele acredita serem policiais e que o teriam tranquilizado, mesmo após um aviso que ficou ecoando em sua mente: “Então, cara, você tem que cuidar. Eles querem te empurrar um estupro”, teria dito um dos homens.

“Fiquei preocupado nessa hora. Eu frequento a igreja católica ou a evangélica. Eu não tenho essa índole. Eu não preciso disso. […] Isso [estupro] nunca aconteceu e nunca vai acontecer.”, disse Givaldo Souza, que está desempregado.

O caso está sendo investigado pela Polícia Civil e, inicialmente, foi tipificado como “legítima defesa de terceiros”. Isso porque o personal trainer Eduardo Alves, 31, alegou que pensou ter testemunhado um caso de estupro envolvendo a esposa, o que teria motivado a agressão. A violência sexual não foi confirmada pela investigação até o momento.

Apesar da alegação do profissional de educação física, Souza diz não ter dúvidas de que a Justiça será feita. “Caso ela [a Justiça] não fosse justa, eu não sairia de mãos soltas após ganhar alta no Hospital Regional de Planaltina”.

“Milhares de pessoas podem me ver com maus olhos. Milhares de pessoas podem se colocar na situação — e têm a liberdade de ver, através da Polícia Civil, tanto aquele carro que tem meu sangue nele quanto as câmeras. Deus é tão maravilhoso que fez aquela mulher me parar debaixo de uma câmera. Se não fosse isso, seria uma acusação injusta. Uma mentira pode ser dita um milhão de vezes, sempre continuará sendo mentira. E a verdade não. Ela [a verdade] desfaz isso.”

Mais um capítulo num roteiro de infortúnios

Ainda com rosto machucado, Givaldo contou com detalhes como ficou em condição de rua. Nascido e criado na cidade de Luís Eduardo Magalhães (BA), o homem se viu sem chão ao terminar o casamento de mais de sete anos. Ele e a ex-mulher tiveram uma filha, hoje com 28 anos.

“Trabalhei de tudo nessa vida. Apicultor, faxineiro, mecânico. Mas me vi sem futuro quando terminei meu casamento. Já estava com ela há anos, tivemos nossa filha, mas firmamos compromisso muito tempo depois.”

Após o divórcio e desempregado, Souza soube, por amigos, que Goiânia (GO) seria uma cidade boa de se morar, com oportunidade de trabalho e baixo custo de vida. Por meio de uma passagem de ônibus social, recebida gratuitamente, o baiano embarcou no coletivo em busca de uma vida melhor.

Mas, sem conseguir emprego, foi de carona até o Distrito Federal, onde, sem encontrar oportunidades, conheceu o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), localizado na Asa Sul, centro de Brasília. O local é uma unidade pública da Assistência Social que não funciona como abrigo, mas oferece atendimento a pessoas em situação de rua, individual e coletivo, e dispõe de oficinas, atividades de convívio e socialização, além de servir de ponto de apoio para quem vive ou sobrevive nas ruas, de alimentação a higiene pessoal.

“Foi no Centro Pop que soube do Instituto Cantar (abrigo), em Planaltina. Fiquei lá quatro meses. No meu último dia de unidade que conheci a mulher, foi quando minha vida virou do avesso. Precisei sair de lá porque temos um tempo máximo de quatro meses. Mas lá tomava banho, comia, conversava. Era bom”, relata.

Em busca de recomeço

Givaldo Souza disse que, apesar da repercussão do caso, não pensa em voltar para a cidade de origem e que deseja voltar a trabalhar. No entanto, alega que, mesmo seu nome circulando fortemente, ainda não recebeu oportunidade de emprego.

“Quero ter meu canto, minha casa, minha cama. Juntar dinheiro pra visitar minha filha, que mora em São Paulo. Não quero fama não,
sabe? Só seguir minha vida em paz”, disse. Segundo ele, não houve qualquer contato de familiares nessas últimas duas semanas, desde que se viu envolvido no episódio.

Sobre o casal, Souza diz não guardar rancor do agressor e muito menos da esposa dele e que quer ter paz para seguir em frente.

Eu não tenho nada contra ele. As acusações falsas precisam ser analisadas e elas têm que ser desfeitas. Eu o perdoo.

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