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Sem transtorno, sem desculpa, vou te apresentar o henrique!

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Não nos conhecemos no Jazz nem no boteco do Portuga. Não houve troca de olhares avassaladores como acontece com o mocinho e a mocinha no cinema. O mundo não girou devagar, não estava tocando Coldplay e ele não se vestia e nem se portava como um príncipe abobalhado, digo, encantado.



Ele começou a trabalhar na mesma empresa que eu. Quando a minha gerente o apresentou a equipe, fiz o que sempre faço, cumprimentei e falei algo engraçado. Depois voltei ao trabalho pois, tinha mais interesse em acabar com os afazeres do dia do que descobrir mais sobre o cara novo.

Nosso segundo encontro, foi na máquina de café. Ele usava uma calça jeans, camisa social quadriculada e tênis, TÊ-NIS! Estilo exótico ou cheio de indecisão? Bom, você decide. Peguei o expresso curto de sempre, mexi, provei, disse algo engraçado e sai. Nós almoçamos algumas vezes juntos, nada romântico – era no baratinho com a galera do administrativo. Nós conversamos vez ou outra, mas nada muito íntimo, eram assuntos de pouca relevância, na verdade, era mais zoeira que conversa.

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O Henrique me deu carona até o metrô, riu das minhas piadas, dividiu a fejuca e a caipirinha de maracujá do Gama. O Henrique falou dos antigos amores e de quão chato ele achava relacionamentos – porque tinha cobrança, porque machucava. O Henrique falou da faculdade, da família, dos amigos, do futuro profissional. Falou, falou, falou…viramos amigos, Henrique estava na friendzone.

Um dia o Henrique me chamou para sair – eu fui, éramos amigos, oras. Fomos tomar café gelado com chantilly. O café acabou mais rápido que o esperado, pela primeira vez na vida, estava diante de alguém sem conseguir falar nada.

Voltamos para o estacionamento, entramos no carro e enquanto tocava Tim Maia – gente, ele põe Tim Maia no primeiro encontro – o Henrique se aproximou e naturalmente, me beijou, depois beijou de novo, depois de novo. Nós conversamos sobre medos, cobranças, vontades. Eu encostei no peito dele, eu vi estrelas nas luzes dos prédios, eu esqueci a coisa ruim que amores doutrora plantaram no meu coração. Eu quis que o tempo se arrastasse bem devagarzinho só pro cheiro dele se espalhar pelo meu corpo. Nós começamos a namorar. Fomos ao cinema de mãos dadas, dividimos o mesmo copo de cerveja no meu boteco favorito, fomos ao parque, conhecemos a família um do outro, viajamos, brigamos, fizemos as pazes, ele foi aprovado pelos meus amigos e logo virou brother da galera, voltamos para casa triloucos, gargalhamos de coisas idiotas, choramos juntos, ele foi apresentado a minha síndrome do pânico e me amou dobrado desde então. Ele descobriu a minha tristeza isolada, descobriu que há um vazio torturante no meu peito ocasionado pela falta de um pai, ele descobriu quem eu sou sem a máscara e mesmo assim, ficou e, vai ficando.

O dia eu e o Henrique nos separamos. O nosso namoro tinha caído numa rotina desgraçada, não nos preocupávamos em conquistar um ao outro, não nos esforçávamos para apresentar uma versão melhor de nós mesmos ao outro diariamente. Não dava mais, eu chorei, ele chorou. Cada um para o seu lado – um par desfeito traçando caminhos individuais.


Depois de um tempo nos encontramos de novo. Ele me levou ao mesmo estacionamento, colocou a mesma música e me beijou como a primeira vez. Viver sem o Henrique é absolutamente possível. Ele não é uma necessidade é uma escolha – a melhor nos últimos dois anos.

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Sem o Henrique eu continuo a respirar, a trabalhar, a frequentar os lugares que costumo ir, mas sem ele, os dias também demoram à beça para passar, os finais de semana são tediosos, até a pizza de pepperoni que eu adoro perde o sabor. O Henrique pintou meu coração cinza com cores vivas e quentes. O Henrique pode não ser o amor da minha vida, mas ele vem tornando-a mais leve e fácil de ser revivida. O Henrique não é um príncipe, mas me olha com cuidado e zelo, me ama em dias de cabelo arrumado e em dias de nariz entupido, me faz rir feito criança e adora as caretas que eu faço.

O Henrique ama o que escrevo e vive a dizer que eu deveria escrever um livro, mas ele também diz que eu nunca escrevo nada para ele, então decidi apresentar o Henrique para vocês, o meu Henrique, o meu amor.


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