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Separação – como lidar com isso?

Na hora da separação…



O fim do casamento, do namoro ou mesmo de uma paixão fulminante sempre causa abalo e muita dor.

Mas por que são raros os que lidam bem com a separação, mesmo que a ruptura amorosa seja tão conhecida por todos nós?

Separações e divórcios nunca foram tão numerosos. No entanto, as estatísticas não aplacam o isolamento quando isso acontece em nossa casa e ninguém sabe direito como enfrentar a dor – muitas vezes acompanhada por disputas, traição, agressividade, abandono.


Por que o rompimento é tão mal?

Por que a separação é percebida de forma tão negativa?

Por que tanto sofrimento no momento de terminar uma relação amorosa?

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Por que nossa cultura não faz do provisório uma riqueza, uma fidelidade à vida e às suas metamorfoses?

Essas questões foram investigadas pelo antropólogo italiano Franco La Cecla, 54 anos, professor da Universidade de Veneza, em seu mais recente ensaio: Je Te Quitte, Moi Non Plus ou l’Art de la Rupture Amoureuse (Eu Te Deixo, Mas nem Tanto, ou a Arte da Ruptura Amorosa, sem tradução para o português).

Ele defende que a dimensão da ruptura amorosa continua sendo algo que nos recusamos a enxergar. No amor, há a arte da ruptura, assim como a da conquista.

“A separação é a repetição, em negativo, da surpresa do amor”, diz La Cecla. Nesse caso, o amor é autenticado pela dor. Separar-se de forma dolorida é uma maneira de proclamar que o amor existiu, que se viveu e experimentou uma história autêntica, sólida, sincera. “Se a separação fosse de outra forma, haveria esta dúvida: foi apenas delírio amoroso ou uma relação verdadeira?”


Até que a morte nos separe?

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Para falar de como nos separamos, é preciso entender o modo como nos apaixonamos e amamos. Para o antropólogo, nossa sociedade vive no dogma do amor eterno, que deve durar toda uma vida. “Ainda não nos livramos das obrigações dessa forma utópica do amor”, diz ele. E pergunta: “Como poderemos nos situar numa sociedade baseada no amor não durável?”

Para La Cecla, os casais se recusam a considerar o momento da separação como o que é, ou seja: uma passagem – como o nascimento, a iniciação masculina ou feminina na idade adulta ou o casamento. Em outras culturas, a idéia de que um elo possa ser rompido não é percebida de forma tão trágica e solitária como na nossa.


Ele cita o caso dos tuaregues, um povo nômade do deserto africano em que as separações são oficializadas por meio de uma festa. Esses rituais contra a tristeza provocada pelo abandono só são possíveis porque todo um grupo partilha a idéia de que as relações entre casais são, muitas vezes, efêmeras, explica ele. “Toda a tribo é educada e age no sentido de evitar que as crianças sofram com a separação.”

Armadilhas de sempre

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Em suas pesquisas, o autor notou o automatismo dos mecanismos de ruptura amorosa. “Não há nada de criativo. Caímos sempre nas mesmas armadilhas, nos mesmos clichês e estereótipos. De um ponto de vista antropológico, há regras que retornam sempre e podem ser adivinhadas”, diz. La Cecla classificou as separações em quatro categorias: Eu Te Deixo, Você Faz de Tudo para Que Eu Te Deixe, Você Me Deixa e Nós Nos Deixamos. Os dois primeiros casos supõem uma ação e são práticas correntes, o que não absolve os parceiros de uma certa crueldade. O terceiro caso é uma suspeita, uma constatação, uma reação: os dois assumem um papel que os obriga a se maltratar. Já o “democrático” e quarto caso, Nós Nos Deixamos, leva a pensar que, no fim das contas, não se tratava de uma profunda história de amor.


Na maioria dos países europeus, por exemplo, são as mulheres que pedem o divórcio (cerca de 70% dos casos). Então, existe uma forma feminina e outra masculina de se separar? Em geral, Franco La Cecla acredita que não, mas, mesmo assim, aponta certas diferenças. “As mulheres sabem romper de maneira mais efetiva. Sabem melhor o que são as emoções e se mostram mais capazes de administrar a situação. Já os homens se sentem menos à vontade em relação às emoções.” Mas no fundo, acrescenta, há uma certa “ignorância partilhada” quando ocorre o momento da ruptura amorosa. “Nesse ponto, somos ignorantes nos gestos e desprovidos de sabedoria”, aponta.

“A ruptura é o outro lado da paixão. Na base da idéia de viver a ruptura amorosa de maneira trágica, existe a recusa em pensar a relação em si e refletir para que serve, afinal, o relacionamento. Se a relação faz parte da história de meu desenvolvimento pessoal, não há uma verdadeira ruptura. O vínculo permanece”, defende.

Sem negar os momentos bons

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Franco La Cecla acredita que terminamos mal as histórias de amor também por não sabermos como tratar as lembranças de relações passadas. “Não sabemos o que fazer com a felicidade que vivemos, como utilizá-la depois. É como se a única forma de relembrá-la fosse o sentimento de tristeza ou saudade”, sustenta. Vivemos os amores no presente, diz ele, mas somos incapazes de viver os amores terminados, mesmo que tenham sido felizes.

Em sua avaliação, seria necessário que a sociedade inventasse um novo código e criasse espaço para essa transição, mas ele não aponta soluções imediatas. “Não há regras para viver o amor ou a ruptura. O fim de um amor é também parte da história amorosa”, afirma.

No período em que finalizou o livro, o antropólogo conta que, coincidentemente, também terminou uma história de amor. Franco admite já ter sofrido muito por causa de separações, mas hoje afirma estar mais preparado para viver isso, e de forma menos trágica. “Não se pode ter vergonha de romper. É necessário dissociar o amor da idéia de fracasso, de morte, e também compreender que o fim do amor faz parte da existência. Saber viver o fim de um amor é saber viver”, conclui.

Em verso e prosa


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Pode reparar que a maioria das músicas e dos filmes fala de corações partidos, de amores rompidos. E os arquivos da humanidade estão repletos de cartas de adeus, que nos tocam, e nas quais reconhecemos uma linguagem comum. O antropólogo Franco La Cecla recorreu a seus conhecimentos literários e filosóficos para ilustrar suas considerações sobre a ruptura amorosa. Não faltam citações e histórias de amor para ajudar o leitor a compreender os mistérios das separações. Os escritores franceses Stendhal e Gustave Flaubert são, segundo La Cecla, a representação máxima no romance do amor-paixão, que é “ao mesmo tempo nossa alegria e nosso calvário”.

A música é igualmente relembrada por meio de Cole Porter: “Everytime we say goodbye/ We die a little (cada vez que dizemos adeus, morremos um pouco).” E os poetas brasileiros também não foram esquecidos. Além de versos de Carlos Drummond de Andrade e Vinicius de Moraes, na MPB ele destaca a letra de Caetano Veloso e Ferreira Gullar para a canção Onde Andarás: “Enquanto o mar bate azul em Ipanema/ Em que bar, em que cinema te esqueces de mim…”

“A ruptura é uma passagem, uma etapa de amor.


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Se a relação faz parte do seu desenvolvimento pessoal não há uma verdadeira quebra.

O vínculo permanece.”

(Franco La Cecla, antropólogo italiano)

Por Fernando Eichenberg, Revista Bons Fluidos – 2004

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