Separados sob o mesmo teto – Viver a dois: uma decisão que requer escolhas e renúncias…

Viver a dois é uma decisão que requer escolhas e renúncias. Precisamos ser tolerantes com as diferenças, precisamos ceder e conquistar o outro todos os dias, seduzir mesmo no dia que estamos mortos de cansaço por causa do trabalho e ter fé no amor sempre.

Separados sob o mesmo teto…

Mas nem sempre é possível salvar o amor. Muitas vezes, com o passar dos anos, deixamos de amar ou perdemos o desejo, virarmos amigos ou irmãos. Outras vezes também viramos estranhos, hóspedes da mesma casa.

Nem sempre nesse caminho de separação é possível ir embora e deixar de habitar sob o mesmo teto. Bens em comum, família, filhos para criar e dificuldades financeiras fazem com que permaneçamos ali. Muitas vezes a separação não existe de forma declarada, verbalizada, mas é sentida pelas duas partes. Já não há interesses em comum, já não há cumplicidade, beijos mais demorados e paixão.

Existe apenas a acomodação dos dias que vamos empurrando com a barriga até que algo de extraordinário aconteça. Raramente o extraordinário será o renascimento do amor, quase sempre é o surgimento de uma terceira pessoa para um dos dois que levará essa separação velada a se tornar algo real e palpável.

O rabino Nilton Bonder, no seu famoso livro a ALMA IMORAL, diz que nem sempre há que se falar em traído ou traidor. Aquele que se acomoda e deixa de nutrir o amor e a relação é tão traidor quanto aquele que cansou de ser visto como uma mobília da casa e resolveu se abrir para o mundo. Quem rompe com a acomodação de uma relação que é muito mais tradição do que amor, deveria ser chamado de libertador e não de traidor. Mas os relacionamentos sempre são vistos sob a ótica do certo e do errado, do bem e do mal, da vítima e do algoz.

Estar separado e viver sob o mesmo teto tem que ser bom para ambos.

Tem que ser uma relação de amizade muito mais do que submissão e impotência. Dizer que não tem para onde ir ou como sair do imóvel pode ser um desejo inconsciente de permanecer ali, como quem guarda o território, na esperança de que tudo volte a ser como antes, de que a pessoa a quem amávamos irá cair em si e reconstruir os cacos de uma relação que é muito mais casa que afeto.

Nem todo mundo deixa uma relação de anos no mesmo tempo, nem todo mundo deixa de acreditar que tudo pode ser refeito. Existem pessoas que sempre nutrirão algum tipo de esperança de que naquele lar onde tudo já foi amor um dia, volte a ser flor e poesia. Mas nem sempre é possível.

Esses mais esperançosos que ficam ali acomodados, culpando as impossibilidades financeiras e circunstanciais que os impedem de ir embora, são os que deveriam pular do barco primeiro. Porque só entenderão a separação afetiva, quando ela estiver delimitada geograficamente, numa outra casa, num outro lar, numa cama sem memórias ou sem cheiro no travesseiro.

Quem estiver separado sob o mesmo teto e disser que é livre e está pronto para viver uma história de amor, saiba que não é bem assim.

A separação tem que ser interna, porém, para algumas pessoas ela só chega no distanciamento do outro, fazendo-as acreditar em novas experiências e ter apenas a esperança de ser feliz como já foi outrora.

É preciso coragem para romper, para dar adeus ao teto que é também o conforto e a segurança que aquele afeto nos ajudou a construir. Tem horas que para ser feliz é preciso partir.



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