Ser especial: realidade, ficção ou nada mais que a obrigação?



Olhe para as pessoas que o rodeiam, sobretudo, aquelas que por quem você nutre algum tipo de afeto, simpatia e até mesmo amor.

Pense no que as faz significar o que significam para você, como elas são e o que o leva a ter apreço por elas.

Seria a honestidade, o bom humor, o coração generoso, a forma como ela lhe trata?

Podemos dizer então que estas pessoas são especiais.

Sim, mas especiais para você, embora não signifique que não possam ser para os outros e podem também não o ser para mais ninguém, mas são especiais.

Se você perguntar para todas as pessoas que conhece se elas se julgam especiais, é possível que a maioria responda que sim, e as que não o fizerem, provavelmente, será por receio de serem interpretadas como presunçosas.

No íntimo, todos nós nos julgamos especiais, e de fato o somos.

Todos nós somos pessoas especiais!

É certo que a maioria de nós não se pode considerar inauditos, pois que este termo já abrangeria os incomparáveis, os fantásticos, os inestimáveis.  Estes até existem, porém não se encontram amiúde em todas as esquinas da vida.

Existem os que são especiais apenas para si mesmos, são os egocêntricos, as pessoas de má índole que, normalmente, têm uma autoimagem distorcida,que não as permite perceber o que realmente são.

A palavra “especial” não tem apenas uma conotação positiva, podendo vir a significar, por exemplo, estranho, irregular, acidental, típico, específico, exclusivo, cujos sinônimos têm significados neutros ou, dependendo do contexto, até mesmo negativos.

Enfim todos nós somos especiais, verdadeiros ou falsos especiais.

Ocorre que se ouve muito e banalmente dizerem por aí o quanto alguém é especial, desta forma, parecendo que neste mundo todos são extraordinários, pois o modo como abordam esse “ser especial” é quase sempre carregado de exagero, não compatível com o que de fato isso significa.

Sim, são especiais as pessoas otimistas e compreensivas, mas também são  especiais aquelas que simplesmente se levantam cedo para ganhar o próprio sustento, seja ele qual for, desde que de forma digna.

Pessoas simples e generosas são quase sempre especiais, mas aqueles que lutam contra uma enfermidade com bravura e determinação não podem ser esquecidos nesta lista.



Aqueles que são capazes de partilhar e praticar a empatia são indiscutivelmente notáveis, porém, ao usar o sinônimo “único” para definir estes como especiais, já não constitui uma afirmação verdadeira, uma vez  que existem outros capazes de ser como estas, por isso, não são únicas.

Pessoas que sabem sorrir sinceramente, que transmitem leveza nos seus atos, de tão especiais, chegam a ser quase fantásticas, mas tão incrível quanto estas são as mães que alimentam seus filhos às duras penas, devido às adversidades da vida.

Maravilhosas são aquelas que se sentem felizes independentemente das circunstâncias, mas são especialmente fortes aquelas quer vivenciam com bravura e coragem, por exemplo, as consequências das catástrofes naturais, cujo sofrimento é inimaginável.

Então, todos  nós somos especiais e únicos, no sentido de que não existem dois de cada ser humano.

Somos especiais quando honramos nossos compromissos, somos especiais quando temos compaixão,  sobretudo quando somos altruístas.

Não é necessário inventar a lâmpada, nem salvar toda uma aldeia da fome, também não é necessário demonstrar felicidade todo o tempo e o tempo todo, nem todos o conseguem, mas nem por isso deixam de ter seu lado especial.

Essa reflexão é para pensarmos em quantas vezes interpretamos erroneamente o sentido de ser especial. O quanto na trivialidade do dia a dia, presunçosamente nos sentimos ímpares quando, na verdade, somos apenas aquilo que todo mortal tem a obrigação de ser.

Assim sendo, reafirmo que todos nós somos especiais, talvez em níveis de “especialidades’” diferentes, porém todo ser humano que habita  esse mundo,  lutando pela sobrevivência,  vencendo adversidades, crescendo com tudo isso, merece o título de especial e não só aqueles que possuem notoriedade.

É comum se dizer que as pessoas mais sensíveis num sentido humanitário são especiais, e claro que não contradigo o que é incontestável, porém, não deveria ser este o grande propósito de nossa existência? Importar se com o outro, sensibilizar-se com o que acontece a nossa volta?

Na verdade é que, ao mesmo tempo em que banalizamos, supervalorizamos o termo “ser especial”, pois ao mesmo tempo em que todos nós temos algo louvável, essas “virtudes” deveriam ser apenas o dever de cada um.

Saber ser especial é imprescindível na prática do amor-próprio, mas sem ilusões ou enganos que despertem sentimentos de supremacia, levando-nos à cilada da arrogância.

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Direitos autorais da imagem de capa: djoronimo / 123RF Imagens






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