Ser humano é permitir habitar dentro de si a humanidade, entre antíteses e contradições…

O que é ser humano?  

Comecemos por fixar o nosso olhar sobre o homem, não em relação à constituição biológica, mas enquanto ente que habita este planeta durante um tempo e objetivo determinados.

Ser humano é permitir habitar dentro de si a humanidade, a saber, a faculdade de comportar ao mesmo tempo antíteses e contradições, miséria e fartura, heroísmo e vilania, egoísmo e generosidade. 

O belo que pertence a nós, é assumido com ardor, exibido como troféu. O torpe e o vil também nos dizem respeito, porém, causam-nos aversão.

Certamente bradamos incisivamente que a maldade não faz parte do gênero humano. A todo custo queremos extirpá-la da possibilidade de alguma identificação imediata conosco.

Embora a mão que afaga também agride, desta realidade nenhum de nós escapamos inocuamente.

Naveguemos agora pelo mar da psicanálise freudiana para explicar que recalcamos em nosso psiquismo aquilo que nos é menos – ou nada — atraente e prazeroso. Em outras palavras, escondemos nos porões recônditos da nossa mente aquela nossa parte mais tenebrosa da nossa existência, cujo contato tentamos a todo custo evitar, para que o sofrimento não nos venha à tona.

Nesta vivência, acabamos por nos dissociar do que é verdadeiramente nosso. Insistimos em configurar a nós e ao mundo que nos circunda conforme o nosso interior neurótico capta como conveniente e confortável.

Costuramos remendos de memórias alegres e agradáveis, fazendo pence do que está demais na nossa história.

A questão é que cada mínima ação nossa – principalmente as indevidas – tem um preço a ser pago, que pode ser alto. 

Para alinhavar tudo o que foi dito até então, é interessante citar a estória do monstro de Frankestein, criatura inicialmente idealizada como um humanóide, e que era perfeito para seu criador. Nascido a partir de descargas elétricas investidas sobre um corpo composto de pedaços de cadáveres variados, não correspondeu às expectativas de quem o criou, sendo imediatamente abandonado à própria sorte, uma vez apresentando-se horrendo e assustador.

Mais adiante, a narrativa detalha que a repercussão deste desprezo é devastadora, causando ao inventor do monstro prejuízos gravíssimos em seu círculo familiar com a morte de dois de seus entes queridos. A criatura veio cobrar a paga.

Qual a verdade que este romance de ficção encerra?

Querendo ou não, somos criadores da nossa própria realidade, acreditando que cada passo dado é o ideal (ou não, podendo ser o melhor que pode ser feito no momento).

A vida decorre das escolhas acertadas e outras nem tanto, mas há um fato: o mundo ao redor é um espelho fiel do que concebemos em nossa mente, e das consequências desta imaginação não podemos nos isentar.  

O que está resolvido ficará pacificado e fará parte de um passado, e o que pendente ficou voltará com força, sem previsão da magnitude deste retorno, em forma de sonhos recorrentes ou sintomas psicopatológicos, por exemplo.

Para que pelejar contra algo que é propriamente seu?

O que aparentemente é mau ou feio em você na verdade só mostra os outros 50% da sua essência, cuja beleza só é completa se associada com o seu oposto.

A vida requer de nós que cuidemos dela diligentemente, assim como percorrer o caminho necessário para que isto seja possível.  

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Direitos autorais da imagem de capa: evdoha / 123RF Imagens



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