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Ser uma pessoa sensível em um mundo cruel…

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Quando andava na escola e o ano acabava, tínhamos o hábito de pedir a todos que assinassem o nosso uniforme e completassem com uma dedicatória. Certa vez, ao terminar o 4º ano letivo, a minha professora de expressão dramática escreveu na minha tshirt: “Nunca percas tanta sensibilidade! Nunca!”



Não percebi muito bem o que aquilo queria dizer – na altura nem sabia muito bem o que “sensibilidade” significava.

Agora, já estou bem familiarizada com o conceito. Já fui diagnosticada como sendo “muito sensível”, por amigos, familiares e professores de todos os tipos. Nunca soube se isso era algo benéfico ou prejudicial – até porque, aqui em Portugal, quando dizemos “muito” normalmente queremos dizer “demasiado”. Penso que será os dois.

Por vezes tenho a impressão de que o Mundo quer banir certas emoções, ou usá-las para pura manipulação e gerar o lucro. A alegria é promovida, encorajada e divulgada, mas mais gente sofre de Depressão do que alguma vez antes na história.


As emoções são uma coisa complicada. Têmo-las o tempo todo, quase uma para cada situação, mas não ouvimos o que elas nos querem dizer.

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Nem sequer fomos ensinados para isso. Não é na escola que aprendemos a amar-nos a nós mesmos, a dar a volta às inseguranças que surgem, por acharmos que não somos bons o suficiente – temos que fazer as coisas e pronto.

Não concordo com isso. Acho que trabalhar o interno é fundamental, e que a sensação de fracasso é um sinal de alerta, de que há algo que devemos mudar dentro de nós – não apenas nas nossas ações.


Temos que nos voltar para dentro para sabermos a origem de tudo o que nos acontece, para podermos realizar aquilo que queremos fazer. Porém, apoiamo-nos em mentores e amigos para nos dizer o que devemos fazer, em vez de nos dizerem como nos podemos sentir melhor.

Por vezes parece cruel demais, viver num mundo tão apático aos sentimentos, à melhoria do eu. Mas depois penso, eu também sou humana e faço parte deste Mundo. Em essência, o ser humano não é cruel. Não há seres humanos “maus” de raíz. Não há um interruptor para a escuridão, por isso ela não é escuridão pura, é apenas essência de luz.

Entre escuridão e luz lutamos, e quanto mais luta, mais sofrimento e cansaço. Por isso, os sensíveis, que sentem cada emoção desta escala à flor da pele, são aqueles que melhor podem descrever este duelo interno.

Para as pessoas sensíveis, emoções não são apenas estados – são condições físicas. A humilhação faz com que coremos e as nossas faces escaldem, o amor causa distúrbio da fala e fraqueza, o entusiasmo dá um brilho aos nossos olhos.


Ser sensível é viver cada emoção com tudo o que somos. É um impulso incontrolável de sentir o momento presente, e a incapacidade de fingir.

É chorar, bastante e em momentos menos oportunos. Mesmo assim, a sociedade não considera qualquer momento “oportuno” para chorar e expressar emoções menos agradáveis. Fomos treinados a ser alegremente apáticos. O sofrimento e misericórdia estão reservados para as produções televisivas, entre elas o telejornal.

Quando se trata de quem nos é próximo, a pessoa sensível dá trabalho, porque na maior parte das vezes não a compreendemos, nem as suas razões para se sentir como se sente.

Muita gente associa também a sensibilidade emocional à tristeza excessiva, ao melodrama. Como mencionei antes, é quase impossível uma pessoa sensível fingir sentimentos. Sentimos com intensidade, por isso evitamos ao máximo expressar ainda mais do que já expressamos.


Os sentimentos têm uma importância crucial na nossa orientação interna. São aquilo que responde às perguntas: “Onde devo ir a seguir?”, “Para onde é o melhor caminho?” ou “O que é que eu realmente desejo?”

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É nas emoções que temos um guia 100% confiável, pois são elas a ponte entre onde estamos e onde queremos ir. São o indicador de direção adaptado às nossas preferências e crenças, neste espaço e tempo específicos.

É difícil ser uma pessoa sensível se formos uma esponja. Não é preciso muito para nos sentirmos sobrecarregados com emoções negativas, somos rodeados por situações menos agradáveis o tempo todo. Há um bombardeamento de informações e coisas que requerem a nossa atenção, e somos quase que obrigados a focar-nos nelas, senão seremos chamados de egoístas.


Mas nenhum ser humano tem a capacidade de ser uma esponja para tudo o que vê, ouve e vive. São muitas energias diferentes, muitas frequências misturadas, e a nossa vida tornar-se-á nesta mistura, porque onde direcionamos a nossa atenção, atraímos mais situações dessa mesma frequência.

Temos que ser um filtro. Temos que saber aproveitar esta sensibilidade para vivermos a vida que amamos, e para que a nossa Felicidade seja vivida como só nós conseguimos sentir.

Ao treinarmos a distinção entre aquilo que nos prejudica e aquilo que nos é benéfico (deixando-nos guiar pelo que sentimos a cada momento), aprendemos que de nada adianta alimentar sentimentos negativos, que apenas nos desgastam e empurram para um buraco cada vez mais fundo.

Deixemo-nos ser levados pelas coisas boas, por aquilo que nos faz sentir elevados e mais vivos, pois é isso que tem mais poder. Quanto mais alimentamos o positivo, mais forte isso nos torna, e mais fácil fica de automaticamente retornarmos a nossa atenção para ele.


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A meditação é a melhor prática para aumentar a sensibilidade. Assim, podemos distinguir o contraste e habituarmo-nos a dar atenção apenas àquilo que nos faz felizes, pois o que nos faz mal é demasiado doloroso. Há mais clareza, e treinamos a nossa capacidade de sermos um filtro em vez de esponja.

“cada relacionamento é um espelho. Ele revela sua identidade a você!’’

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