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Sobre como nossa filha se colocar de castigo e o nosso poder como pais:

Sobre como nossa filha se colocar de castigo e o nosso poder como Pais 1

Minha filha pequena, Lulu, recebeu um convite pra passar uma semana com um grande amigo nosso e sua filha, por coincidência, meu dentista há mais de vinte e cinco anos.



Ela empolgada, preparou sua mala, organizou em detalhes o que levar – maquiagem inclusive (ela foi para praia!) se despediu lépida e faceira,  repetiu umas 200 vezes “te amo muito e pra sempre mamãe!”, “vou sentir saudade”, mas nada que modificasse seu aceite no veraneio. Firme forte, decidida.

Ocorre que em nenhum momento dissemos à ela “toma cuidado, o mar é perigoso, a piscina é funda, pode bater a cabeça e quebrar os dentes em um mergulho desastrado, não conversa com estranhos, te comporta e obedece”. Ocorre que aqui ficamos, os pais, saudosos e entendendo o quarto vazio, a toalha de banho que ficou estendida, o  cusco que busca por ela na casa inteira, e efetivamente, como é a jornada da independização, neste caso, desconfortável aos pais mas absolutamente necessária.

Pois o nosso cérebro registra barbaramente a tragédia, a dor e o desalinho da vida, e então se prepara para tudo isso, e não raro, alguma coisa acaba por dar errado. Quando programamos a mente, através das palavras, para que ele ligue seu radar para tudo o que poderá ser maravilhoso, o amigo cérebro fica buscando encontrar exatamente isso, o maravilhoso do momento. E não raro, acaba por encontrar.


Muitos de nós somos capazes de lembrar, em algum momento de nossas vidas, uma mágoa profunda que foi causada por uma crítica ou uma palavra áspera dos pais. E as vezes lembramos disso aos 70, 80 anos…

Minhas recomendações foram: “Aproveita e te diverte, tu és responsável por tua segurança e confio em ti, curte tua amiga querida, tu já sabe nadar que nem uma peixinha, e volta em segurança pra mamãe.”

Mas como minha matriz é de uma matrícula na escola do medo, do perigo, do persecutório, minha pior sombra apareceu quando disse pra Lulu que, se voltar com queimaduras de sol, por falta de usar o protetor solar, vai “se” colocar de castigo até o final do verão.

Porque na nossa casa a filha toma decisões, dessa forma: a cada escolha uma renúncia, e a cada decisão uma responsabilidade, e se decidiu de forma ineficaz, decidiu por renunciar a alguma coisa de que gosta muito.


Assim, “se colocou de castigo”. Mas prossigo em evolução. Já me dei conta, orai e vigiai.

Aprendi que nós pais, devemos criticar o comportamento, e sempre preservar a identidade. Dos filhos, de quem amamos, de quem apenas convivemos, até mesmo de quem não aprendemos a gostar. Isso significa criticar o comportamento, fazer uma vírgula, e prosseguir acentuando as características plenas e interessantes da identidade de quem nos referimos. Afinal de contas, desconheço uma pessoa sequer desprovida de algum talento.

As palavras têm tanto poder que, ao elogiar sinceramente nossos filhos, amigos, amores, colegas, parceiros, conseguimos modificar dentro de nós mesmos como percebemos essas pessoas, e portanto, modificamos a forma como agimos com essas mesmas pessoas, e como lei de ação e reação, recebemos delas sempre algo melhor do que normalmente receberíamos.

Como pais, aceito e celebro nosso poder e condição de trazer a esse mundo pessoas melhores, mais fortes em suas crenças de identidade, capacidade e merecimento, mais conhecedoras de si mesmas e por consequência, do outro também.


E assim, mais felizes.

Os sonhos também envelhecem e não há problema nisso!

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