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SOBRE MULHERES, MENINAS E BONECAS…

Mulheres são meninas e meninas gostam de bonecas.


Ao assistir a um vídeo no qual uma mulher de idade bem avançada brincava com uma boneca tal qual fosse uma menina de três ou quatro anos de idade me levou às lágrimas.

Em um mundo tão equivocado, agressivo e cruel no qual ouço sempre que meninas não podem ser princesas e que não precisam gostar de bonecas, talvez estejamos nos esquecendo do quanto é saudável o brincar, inclusive com as bonecas. Confesso que me entristeço porque todo tipo de repressão – mesmo esta às avessas – é pouco inteligente e escraviza.

Se quando estamos prestes a ir embora buscamos as bonecas é porque elas nos fazem bem. Quando a idade chega, o que fica é só o que realmente faz sentido. Não precisamos mais nos preocupar com a conduta, com a ordem, com a imagem. Quando velhos, nos tornamos crianças e o que queremos é brincar.


Brincar de boneca é sonho, é projeção, e o manifesto do acalento materno que nasce conosco. Acalentamos bonecas, filhotes de cães, de gatos e acalentamos bebês. Já nascemos sabendo fazer isso. Podemos não querer brincar sempre de boneca, podemos não gostar tanto de brincar com elas, mas não devemos jamais ser proibidas de conhecê-las e quem me mostrou isso foram duas outras mulheres de idade avançada.

Uma delas foi uma mulher muito forte, que criou os três filhos sozinha, pois, o marido morreu muito cedo. A filha mais nova era tão pequena quanto uma boneca, mas ela então não tivera mais tempo para brincar. Mudou-se de cidade algumas vezes até chegar á capital. Trabalhou muito, estudou e casou os três filhos e foi então viver sozinha. Nunca dependeu de ninguém. Cuidava da casa com imenso primor, cozinhava muitíssimo bem. Lia o jornal todos os dias, conversava sobre política, futebol e sobre qualquer outro assunto. Andava pela cidade sozinha, ia constantemente á missa até que um dia ela foi freada por uma fratura de fêmur quando subia no ônibus. Daí em diante ela foi murchando lentamente até ir perdendo a lucidez para com este mundo e passar então a cuidar das bonecas.


Era encantador vê-la carregando-as, cuidando delas, dando-lhes comida, vestindo-lhes roupinhas e chamando-as pelos nomes. Ela lhes dava vida e era ali que ela conseguia demonstrar o afeto que tinha e que a vida real muitas vezes não a deixava expressar porque ela tivera que ser, quase sempre, dura e forte feito pedra. Quando ela se foi, era tão frágil que precisou ser cuidada como uma boneca por seus filhos.

A outra delas também já se foi, e se foi sem dar trabalho algum. Meus olhos mareiam sempre que me lembro dela. Foi a minha maior referência de vida, talvez maior do que a minha mãe. Ela acalentou muitos bebês, os primeiros sete eram homens. Quando me pego pensando que ela cuidou sozinha do marido e de todos os filhos na zona rural, a minha admiração meu amor por ela parecem que vão explodir dentro de mim.

Ela era pacata, de hábitos simples, de pouca cultura, mas muita sabedoria. Humilde a ponto de me pedir, quando eu tinha sete anos, que eu a ensinasse a escrever seu nome porque ela não havia frequentado a escola. A vontade era tão grande de aprender a ler e a escrever que ela foi até à escola para adultos que na época funcionava em frente à cerâmica para os trabalhadores que moravam na colônia. Sua vida toda nunca foi solitária, ela teve ao seu lado um companheiro e talvez por isso manteve-se sempre meiga, paciente, chegava a ser resignada.  Era vaidosa e os cabelos dela pareciam de uma boneca e combinavam bem com os olhos verdes azulados que são iguais aos meus. Nunca a ouvi falar mal de ninguém, ela conseguia guardar seus sentimentos e suas opiniões dentro dela. E que força haveria de ter para conseguir uma façanha destas!

Ela adorava bonecas! Ela era uma mulher que foi menina a vida toda.

Passei a minha infância brincando com a boneca preferida dela, cujas roupinhas ela costurava ou mandava fazer. Cuido da boneca até hoje e a guardo como uma joia preciosa, foi o maior presente que ela me deixou.

Quando a idade chegou, ela também quis uma boneca bebê de presente e esta ficava sempre em cima da cama dela. Meninas sempre têm bonecas sobre a cama.

Não só estas, mas muitas mulheres, quando já se despediam das obrigações da vida, quiseram brincar de bonecas.

Então, hoje lhes escrevo e lhes conto estas duas ternas histórias reais, de mulheres que foram felizes para que deixemos nossas meninas brincarem com suas bonecas, para que não as forcemos a se tornarem adultas antes do tempo, para que não confundamos os conceitos proibindo meninas de serem meninas. Eu lhes escrevo para que esperemos que a adolescência chegue quando os hormônios quiserem. Eu lhes escrevo para que haja liberdade da expressão dos nossos instintos porque, pasmem, ando vendo gente dizer que é feio menina brincar de boneca. Lhes escrevo para que nossas meninas não deixem para brincar com as bonecas apenas quando estiverem prestes a irem embora.

PS: as duas personagens do meu artigo são reais. A primeira delas chamava-se Orlanda e é avó materna do meu marido. A outra chama-se Aparecida, minha avó paterna, minha madrinha, e um dos grandes amores que tenho na vida.





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