Sobre o cavalheirismo e o machismo…

Acho engraçado o quanto algumas situações, relativamente simples, mostram como o machismo é enraizado na sociedade.

Eu não sou uma pessoa isenta de machismo, apesar de lutar, constantemente, para me livrar das atitudes que possuo, não estou aqui me colocando como um baluarte da igualdade e da isenção de atitudes machistas, até porque tenho consciência da minha criação e de toda uma série de conceitos, pensamentos e atitudes que estão, muitas vezes, inconscientemente, em mim.

É interessante ver como o cavalheirismo, que, supostamente, é uma qualidade reservada apenas aos homens, pode ocultar tamanho machismo. O homem quem deve pagar conta, o homem quem deve buscar a mulher em sua casa, o homem quem deve abrir a porta do carro, o homem quem deve fazer o pedido de namoro ou casamento, o homem quem deve ser o detentor do “cavalheirismo”.

É errado uma mulher agir com cavalheirismo?

Confesso que nunca ouvi alguém dizer que uma mulher foi cavalheira, pois é algo que se espera apenas dos homens. Em alguns casos, chega a ser considerado errado uma mulher agir com cavalheirismo.

Quando comecei meu namoro, lembro da tamanha agitação e burburinho que foi quando disse que minha namorada quem me pediu em namoro. Uma minoria achou o fato sensacional, mas a maior parte me criticou e disseram esperar mais de mim, pois sempre fui “um perfeito cavalheiro”.

Perdi a conta de quantas vezes a criticaram ou me criticaram por ter sido ela a fazer o pedido, sendo que é “uma função do homem”. Chega a ser impressionante, para não dizer algo além.

Imagino uma foto onde, ao invés do homem estar ajoelhado pedindo em namoro, seja a mulher. Das famosas ‘reações’ do Facebook, tenho quase certeza que haveria mais ‘haha’ do que ‘amei’, pois é uma situação tão inconcebível para a sociedade, que chega a ser cômica e muitos sequer pensariam em levar a sério, afinal, só pode se tratar de uma pegadinha ou de uma zoeira pós-pedido feito, obviamente, pelo homem.

Antes a situação se resumisse a isso.

Não tenho carro. Costumo pegar caronas com minha namorada e, em todas as vezes, ela quem me deixa em casa. É uma chuva de críticas e comentários, pois é esperado que o homem tenha total independência financeira, que o homem tenha carro e busque e leve a mulher para sua casa. “Onde já se viu, a mulher dirigir?”, “a mulher não pode dirigir sozinha”, “o homem quem deve possuir um carro e passar a segurança de dirigir para a mulher”. Pareço falar algo distante, talvez do século passado? Não, pelo contrário, são comentários recentes e são mais comuns do que deveriam.

Pior ainda quando ela paga os jantares integralmente. Chega quase a ser uma revolta armada contra os costumes tradicionalistas, onde eu sou o causador do motim, pois compactuei com uma atitude absurda dessa. A mulher pagar o jantar? Não consigo imaginar situação mais absurda e distante. “O homem quem deve ser o responsável”.

E mesmo nos restaurantes, não lembro de qualquer situação onde o garçom ofereceu a conta para ela, mesmo quando ela escolhia os lugares, a mesa, o jantar.

É esperado que seja sempre o homem que seja detentor de condição financeira ou “cavalheirismo” para arcar com as custas.

Precisamos tomar cuidado, pois mascaramos o machismo e o preconceito em situações de “gentileza” ou “cavalheirismo”, e assim perpetuamos uma cultura onde, entende-se que, o homem é o único com liberdade total e independência financeira.

E se engana quem pensa que essas ações e pensamentos partem exclusivamente dos homens. Admito que, em várias situações, é difícil avaliar quem são os mais machistas, homens ou mulheres. É um mal que afeta a sociedade de maneira generalizada e mesmo as “vítimas” passam a concordar com a “agressão” e considerar aceitável (por vezes, essencial e natural) a condição de inferioridade.

Já passamos do tempo (louvores a isso) em que eram reservados à mulher apenas os serviços domésticos, em que não lhe era permitido trabalhar, ter direitos, ter voz ou liberdade para agir como quiser e usar seu dinheiro como bem entender. Parece um discurso do século passado, mas ainda vemos o machismo enraizado na sociedade e mascarado nas mais diversas situações cotidianas.

Não é “mimimi”, não é “radicalismo”, não é “frescura” (argumentativa ou real), são pensamentos e ações que nos afastam da igualdade e que nutrem sentimentos negativos e preconceitos intrínsecos, que são passados geração após geração e criam anomalias sociais que não devem mais ser perpetuadas como se vivêssemos na era dos descobrimentos.

Já passou do tempo de acharmos que existem tarefas ou ações exclusivas de determinado gênero, já passou do tempo de termos pensamentos arcaicos e retrógrados.

É hora de avaliação e mudança.  O quão machista você é?



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