Sobre relacionamentos que não podemos deixar no Standby



Cada um de nós é um como um dado e para dois caírem em um mesmo número, no mesmo momento, mais de uma vez, é preciso de muito mais do que sorte.
Recentemente eu fiz aniversário, e como acontece normalmente, muitas pessoas vem te dar os parabéns. Nessa leva de gente sempre aparece uma montanha de semi conhecidos, amigos distantes, alguns parentes aleatórios, e claro exes. Ex colega de trabalho, ex professores, e inevitavelmente, ex namorados. Foi então que alguém do meu passado surgiu das profundezas e veio conversar comigo.

Depois dos tradicionais “tudo de bom, felicidades e etc” começamos a conversar e chegamos no assunto de eu ter vendido uns livros que ele me deu em um sebo. (se você ficou tão chocado quanto ele, eu lhe pergunto o que eu faria com a Antologia Poética do Vinícius de Morais, sendo que eu mal gosto de poesia). Eu confessei que de fato nunca gostei das poesias do Vinícius, mas que não falava nada pra não magoa-lo, então ele me perguntou se eu tinha tido o cuidado de arrancar a primeira página, onde ele tinha escrito uma longa dedicatória. Eu respondi que não, que isso até dava um tom legal no livro e que quem comprasse ia se sentir especial, mesmo que aquilo fosse só um monte de mentirinhas. Ele se ofendeu e disse que não eram mentiras e que eu sabia disso, mas eu falei que só o número de “pra sempre” e “nunca” que existiam naquele texto já ativavam o alarme máximo do Pinóquio. Então foi ai que ele me respondeu “E se o pra sempre que eu disse fosse pra acontecer depois de alguns anos sabaticos separados?” Eu ri e não me choquei, porque ele diz isso há anos, mas naquele dia eu acabei vendo aquele papo por outro angulo. Ao invés de responder de prontidão o que qualquer outra pessoa teria dito (e que eu mesma já tinha dito inúmeras vezes) “me poupe criatura”, eu pensei duas vezes e compartilhei com ele a mesma ideia que compartilho com vocês agora.



Não se pode apostar no futuro, principalmente em relação às pessoas, simplesmente porque o tempo traz com ele muitas coisas, e também leva muitas outras embora. Talvez aquela coisa que você mais amava em alguém se desfaça com o passar dos anos, e talvez esses mesmos anos tragam a essa pessoa características que já não são mais tão interessantes assim pra você. Uma coisa é fato, o tempo muda tudo de lugar. Claro que às vezes ele acerta as coisas pra melhor, e eu não estou dizendo que essas histórias maravilhosas de pessoas que se amam, se perdem, se encontram depois de anos e conseguem fazer aquele amor acontecer são impossíveis. Eu tenho um exemplo vivo disso dentro de casa. Minha mãe e meu padrasto se apaixonaram na juventude, mas não funcionou naquela época, então ele acabou se casando com outra pessoa e minha mãe se casou com meu pai. Mas trinta anos (sim TRINTA ANOS) se passaram, e depois de divorciados eles se encontraram no facebook. Hoje em dia os dois estão ai, namorando, apaixonados e felizes. É lindo, eu sei, mas a história deles é uma em um milhão, e eu sou realista o suficiente pra saber e entender que não é o meu caso, pelo menos não dessa vez. O menino que eu conheci, me apaixonei e passei alguns anos ao lado, não é nem de longe o homem barbudo que conversava comigo aquele dia. Os anos que se passaram depois que terminamos levaram embora coisas dele que eu admirava e trouxeram coisas que definitivamente não são pra mim. Assim como, muito provavelmente, esses mesmos anos fizeram o mesmo comigo. Aquelas pessoas que um dia foram tão compatíveis que chegavam a ser paradas por estranhos na rua para dizerem o quanto eles formavam um casal lindo, hoje em dia vivem em galáxias completamente diferentes. E por isso eu disse que não acreditava na mesma coisa que ele. Porque pra mim não funciona isso de colocar amores, pessoas e situações no standby, esperando o momento certo ou a maturidade chegar. A vida (feliz ou infelizmente) não é um filme do Richard Linklater ou um livro da Jane Austen. Os relacionamentos estão mais para uma comida na geladeira, que depois de certo tempo começa a se transformar, se deteriorar, até não sobrar nada do que era no começo. Cada um de nós é um como um dado e para dois caírem em um mesmo número, no mesmo momento, mais de uma vez, é preciso de muito mais do que sorte. E eu sabia que esse não era o caso.
Ele disse que apesar de não concordar, entendia meu pensamento. E eu me dei conta que apesar de eu ainda não ter processado a chegada dos 24 anos, eles já faziam toda a diferença.
Fonte: Obvious






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