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Sobre ser uma pessoa difícil: difícil é viver longe de si mesmo, fugindo de quem se é!

Não era a primeira vez que aquele assunto vinha à tona, algo a respeito das insatisfações dela com a relação.



Não era a primeira vez que ele respondia as mesmas coisas de sempre, desculpas e respostas amiúde repetidas.

Até que veio a frase, antiga conhecida sua:

– Você é uma pessoa difícil.


A frase pareceu ecoar uma eternidade em seus ouvidos, e a lançou mais uma vez no abismo interminável de suas memórias.

Ela caia…

A mesma frase repetida várias vezes pela mãe, que ainda completava solene e certeira que ninguém, ninguém mesmo suportaria ficar com ela.

– Esse teu jeito… Você é muito difícil… Nenhum homem… Escute bem menina, nenhum, vai suportar ficar ao seu lado.


O tom fatídico e determinista.

A mãe, a quem quisesse ouvir, dizia:

– Ela é difícil. Fala com o Vento… É namoradeira, não sei onde vai dar isso!

Isso fez com que a menina passasse a meninice, a mocidade e até mesmo grande parte da vida adulta em busca da resposta.


A busca foi seu guia…

A busca a fez entrar em becos escuros de si mesma, descer ao seu inferno e dançar com seus demônios.

Ela leu livros, meditou horas, estudou chacras, olhou-se fundo, foi para o fundo.

Foi profundo…


Voltou.

Que jeito difícil era esse, que impediria qualquer um de querer ficar?

De tanto buscar a resposta ela foi longe…

De tão longe que ela foi já não dava mais para voltar.


Foi preciso que muitos anos passassem e muitos amores também, foi preciso que aquele homem na sua frente repetisse a frase…

A frase temida, a frase mil vezes falada, a frase dita em voz alta pelo homem que ela amava:

– Você é uma pessoa difícil…

Foi preciso toda a busca, todo choro, toda risada, toda dança louca para que naquele exato momento, a vertigem da queda livre acabasse.


Ela sorria e dizia baixinho, só para si, mas com certeza o mundo ouvia, e todas aquelas que vieram antes dela, também ouviam.

– Eu sou difícil, eu sou difícil… – e havia nessa frase o prazer de quem se reconhece e se admira.

O êxtase da resposta.

Sim, é difícil conviver com uma Mulher que está em busca de si mesma, e que por isso mesmo não aceita quem se aquieta na própria busca.


Sim, é difícil conviver com alguém que abraça e se deita com a sua própria Sombra.

Difícil uma Mulher que dança com a Lua, que honra seus ciclos de ir para dentro e de sair para a rua.

Difícil deitar-se com uma Mulher que quer descobrir seu corpo e aceita seu prazer.

Enfim…


Agora ela sabia, a mãe se assustava com tudo isso…

– Como você é difícil… – A mãe outrora falara e agora o homem que ela amava repetia.

Ela olhou bem fundo nos olhos do homem que ela amava.

Agradeceu, silenciosamente, que ele estivesse em seu caminho e que ele fosse o portal da resposta que tanto ela buscava e queria.

Sorriu…

Sentou-se na soleira da porta.

O homem que ela amava, olhando a cena, nada entendia por dentro ele falava:

– Como ela é difícil…

O Vento soprou sua saia e seus cabelos. Viu-se menina, a menina sorria. Um sorriso fácil…

Difícil é viver longe de si mesma, fugindo de quem se é.

E nunca lhe pareceu tão fácil viver com ela e ser quem ela é.

Lá do passado, a menina (fácil) lhe sorria.

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Direitos autorais da imagem de capa: dandamanwasch / 123RF Imagens

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