Comportamento

“Sou trans e meu companheiro é um homem hétero”

Capa Sou trans e meu companheiro e um homem hetero

Uma estudante de medicina contou um pouco da sua experiência nos relacionamentos amorosos como uma mulher transexual.

Daniella McDonald, uma mulher trans, disse que namorar homens heterossexuais era um completo show de horrores até conhecer o atual namorado Josh, com quem mantém um relacionamento há dois anos e meio. Mas de acordo com suas experiências, ela acredita que homens heterossexuais podem estar lentamente se tornando mais receptivos à ideia de namorar mulheres trans.

A jovem, que é estudante de medicina, contou um pouco de suas experiências românticas e do relacionamento com Josh ao portal de notícias internacional BBC. Ela se recordou de um momento marcante da relação, que foi quando Daniella e Josh foram pescar com seus pais num lago. Em dado momento, ela viu o namorado e seu pai lado a lado, os dois homens de sua vida, e sentiu um alívio. Não somente porque seu pai e seu namorado se davam bem, mas porque houve uma época na qual pensou que nunca viveria algo assim.

Daniella descreveu sua vida amorosa como um completo desastre antes de conhecer Josh. Assim como vários jovens da sua idade, ela usava aplicativos de namoro para conhecer rapazes e se considerava bem conservadora quanto ao que buscava em um relacionamento: ela queria um parceiro monogâmico, companheiro, alguém com quem pudesse fazer café da manhã e que lhe daria apoio quando as longas horas de estudo na faculdade de medicina fossem puxadas demais. Fez questão de que seu perfil online refletisse esses desejos para que possíveis pretendentes soubessem de primeira o que ela procurava.

Ela disse que sua descrição no aplicativo era o padrão de uma garota em busca de um romance, com exceção de duas palavras: “mulher transgênero”. Daniella nunca escondeu sua identidade de gênero, desde antes de sua transição física, por isso sempre deixava muito claro isso em todos os ambientes por que transitava, embora nem sempre tenha tido boa recepção.

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Direitos autorais: Reprodução / Arquivo pessoal.

E como uma mulher que se sentia atraída por homens, ela gostaria de estar com um rapaz que sentisse atração por mulheres. Aliás, ela confessou que relacionamentos eram uma pauta muito importante na sua vida e de várias amigas também trans.

A universitária conta que sofreu com o comportamento de muitos homens nos aplicativos de relacionamento que já usava, eles lhe mandavam mensagens horríveis, deslegitimando sua identidade, dizendo que ela era um homem e ofendendo-a com palavras de baixo calão. Chegou a receber ameaças de morte com detalhes precisos sobre como esses homens queriam matá-la.

Além desses que eram diretamente violentos, havia homens que pareciam só se interessar por sua transexualidade, como uma espécie de fantasia. Esses, nas primeiras conversas, sempre perguntavam sobre o órgão genital dela, o que deixava a garota desconfortável.

Havia ainda aqueles por quem Daniella se interessava, mas para esses parecia que assumir um relacionamento com ela era sempre um grande desafio. Eles eram gentis, cavalheiros, mas pareciam se envergonhar ao ser visto ao lado de uma mulher trans, isso Daniella sentiu na pele. Esses homens não a apresentaram à sua família e amigos, o relacionamento só poderia funcionar se fosse escondido, pois sentiam que seriam prejudicados se fossem vistos com uma trans. Daniella enxergou aquilo como uma atitude transfóbica, um pensamento internalizado.

Essas situações abalaram a jovem, ela confessa. Em uma das situações mais traumáticas, ela contou que estava num encontro no cinema com um rapaz de que gostava muito. Assim que entraram na sala, Daniella, feliz com o decorrer do encontro, o rapaz nem sequer esperou os trailers acabarem quando se virou para ela e disse que não conseguia fazer aquilo, referindo-se a estar com ela, então se levantou e foi embora. Daniella o seguiu até a entrada do cinema, mas no final cada um seguiu seu rumo.

Situações assim a deixavam sem confiança no amor e completamente devastada, sentia como se o problema estivesse nela.

Foi nessa maré de péssimos encontros que ela conheceu Josh. O rapaz lhe mandou uma mensagem em um dos aplicativos de namoro que ela usava e desde o começo ela sentiu que era diferente. O rapaz era cinco anos mais novo que ela e era um militar, vindo de uma família grande e amorosa, para quem ele logo falou sobre Daniella, incluindo sua identidade de gênero, quando os dois começaram a se relacionar de forma mais séria.

Mesmo com uma confusão no início, a família de Josh logo entendeu e aceitou que o filho estava namorando uma mulher trans. A família do rapaz adorava Daniella! Ela se lembra com ternura de quando foi conhecer a avó do rapaz e ela lhe disse que era uma mulher linda.

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Direitos autorais: Reprodução / Arquivo pessoal.

Como aquele homem hétero podia ser tão diferente dos outros com quem ela saiu? O rapaz disse que tinha uma amiga próxima que também era uma mulher trans, por isso aprendeu a ver as pessoas para além de sua identidade de gênero. Não havia diferença para ele entre namorar Daniella ou uma mulher cis heterossexual.

De acordo com Daniella, o casal — que está junto há mais de dois anos — tem as mesmas discussões que qualquer outro, e diferentemente do que os outros pensavam, o relacionamento dos dois seguia uma linha bem tradicional, como Daniella sempre quis.

Esperança de melhorar o futuro

Depois de suas experiências frustradas nos aplicativos, Daniella e o amigo também trans Avi Manullang se juntaram para criar uma plataforma de relacionamentos que seja mais segura e amigável para as mulheres trans, a “Meu encontro transgênero”, pois estão sujeitas a sofrer violência em ambientes que não as respeitam.

A ideia é que a plataforma deles forneça mais segurança para as pessoas trans que estão em busca de um amor.

E olhando para o futuro, Daniella se sente confiante de que a visão dos transexuais pela mídia e as pessoas será cada vez mais coerente com vivências trans, uma vez que agora temos mais discussões sobre o assunto e representatividade nessa causa. Ela acredita também que, embora seu estilo de relacionamento — uma pessoa cis e uma trans — seja minoria agora, observa um crescimento nesse tipo de casal.

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