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SUBESTIMAR MENOS E APRENDER MAIS: O GÊNIO DOS COMUNS!

Independente de nosso campo de atuação profissional, das qualificações, títulos gabaritados e da esfera de habilidade intelectual e de talento, de fato a maioria das pessoas não possuí inteligência onisciente ou enciclopédica.


Seria mais simples se detivéssemos uma memória similar a de um computador que armazenasse todos os tipos de informações do saber e quando delas precisássemos bastaria um rápido comando e voilá, um prático acesso informativo nos emergiria em mente, tal como quando acessamos sites de pesquisas na internet. Também seria interessante se a grande maioria das pessoas possuísse mentes criativas acima da média e desempenhasse seus talentos com perfeição.

A partir do exercício do entendimento histórico da noção do termo “gênio”, os seres humanos assim considerados no decorrer da história humana[1] nem sempre conquistaram o merecido reconhecimento pelos seus talentos excepcionais enquanto estiveram vivos em suas sociedades contemporâneas.

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Um dos exemplos desta realidade foi o pintor holandês impressionista Vincent Willem Van Gogh, que nasceu em 30 de março de 1853 e vendeu apenas um quadro – “O Vinhedo Vermelho” – para o seu irmão. Gogh morreu na miséria, pôs fim à própria vida aos 37 anos, na insanidade, em um sanatório, no qual ele mesmo se internou. Sua sociedade coeva não o reconheceu como um gênio em vida. Para o pesquisador das ciências sociais Edison Bariani[2], em sua leitura da obra do sociólogo Nobert Elias em, “Mozart; sociologia de um gênio”, o mesmo ocorreu com Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), que também obteve tardio reconhecimento artístico como gênio.

Esses fatos manifestam a necessidade do entendimento do conceito nas épocas de Gogh e Mozart. Na perspectiva do movimento Iluminista, por exemplo, o tema gênio – e, por consequência, o talento – era concebido como um dom natural, como um ocasional presente da natureza, um ingenium natural. O gênio estava além da pessoa, sendo entendido como uma inclinação a parte dela. Era um fenômeno raro e até meados do século XIX não havia a associação do gênio como indivíduo. O gênio Mozart não existiu em seu próprio tempo de vida, pois, a ideia era que o talento natural possuía o sujeito, e não o contrário.

O gênio como indivíduo brilhante é, então, posterior. O indivíduo à frente de seu tempo, detentor de talento pessoal, que rompe padrões, é uma ideia romântica que possibilitou a transformação do conceito a partir do movimento do Romantismo, o qual subsistiu por amplo tempo no século XIX. A mudança pode ser encarada como de ordem cultural: A abertura do espaço de atuação dos autores, que saiam da esfera cortesã do Antigo Regime para ofertar seus talentos e ofícios artísticos a públicos anônimos burgueses. Um momento de transição da arte de artesão para a arte propriamente de artista.


Como uma construção histórica, predomina em nossos dias a ideia dos indivíduos geniais e nos é comum a crença de que reconhecidos pesquisadores, artistas ou cientistas são gênios em sua arte e trabalho. A sociedade os entende como detentores de inteligência acima da média e talentos que ultrapassam as dificuldades impostas pela realidade externa, social. Existem vários nomes conhecidos em nosso tempo, fundadores de redes sociais, empresas, plataformas na internet etc. Esta é a tendência comum do nosso tempo, mas tanto no passado quanto no presente nenhum possível “gênio” ultrapassou as exigências sociais. Ou seja, a criação artística ampara as urgências da vida humana em sociedade e vice-versa.

Sem prolongar outras relevantes considerações, ao contrário dos “heróis” estadistas e cientistas considerados “gênios” em meados do século XIX – século do estabelecimento dos heróis das nações que emergiam –, a tendência moderna secciona o conhecimento devido à impossibilidade de a mente humana tudo compreender e armazenar todo o universo da gnose, que é ampla e rica de conteúdo. Caso analisemos bem, os grandes gênios das conceituadas obras da inteligência e da criatividade humana não eram especialistas em diversificadas áreas profissionais, mas, ao contrário, dominavam e se sobressaiam em meio a um determinado campo de atuação, talento e ofício, geralmente.

Acompanhando uma nova realidade o pesquisador em Tecnologia e professor do MIT (Massachusetts Institute of Technology), Kevin Ashton, defende em seu novo livro, “A história secreta da criatividade”, lançado em 2016, que a criatividade não depende de genialidade. Para ele, a criatividade e as grandes invenções históricas são resultadas de esforço, erros, acertos e muita dedicação. Portanto, não são frutos da sorte, de dom especial ou de uma inspiração divina, mas da intrínseca inclinação humana, presente em todas as pessoas. Sendo assim, segundo ele, o sucesso é um produto daqueles indivíduos “calejados”, tornaram-se os melhores no que fizeram e fazem devido à incansável persistência.

É neste ponto que todas as pessoas são em parte “gênias” a medida em que não desistem de alcançar seus objetivos, quando lutam por eles e os aprimoram podem tornarem-se as melhores especialistas naquilo que fazem, no trabalho exercido, nos estudos, nos esportes, entre seus outros afazeres. Pessoas comuns, sem inteligência excepcional e com certa frequência têm sua inteligência e capacidade profissional e intelectual subestimadas, postas à prova pelas outras mais arrogantes.

O desafio é subestimar menos a capacidade das pessoas, afinal se conhecemos metade do que são capazes, metade da sua história, das suas lutas diárias, ainda pode ser que saibamos bem pouco sobre elas. Quando vemos alguém, vemos apenas uma aparência, uma casca, seus aspectos demonstrados e que, por vezes, os interpretamos errado, assim como nos equivocamos sobre a própria pessoa julgada.

Podemos aprender com todos os indivíduos, aprendizados diversos. Cada ser humano é um universo em si mesmo. Inábeis são aquelas pessoas que desistem do ideal de suas vidas, dos seus sonhos, sem ao menos tentar e aceitam as críticas negativas, invejosas, egocêntricas, injustas e erradas que as más línguas julgam a seu respeito.

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O convite está feito: Por que não nos subestimarmos menos e aprendermos mais uns com os outros? Menos críticas nocivas e mais estímulos positivos, por favor, merecemos!


Referências:

ASHTON, Kevin. A História Secreta da Criatividade. Editora Sextante: Rio de Janeiro, 2016. – BARIANI, Edison. Indivíduo, sociedade e genialidade: Nobert Elias e o caso Mozart. Revista Urutágua. Universidade Federal de Maringá: Paraná, 2005. Disponível em: <http://www.urutagua.uem.br/008/08soc_bariani.pdf>. Acesso em 4 de dezembro de 2016. – DELOU, Cristina. M. C; BUENO, José. G. S. O que Vygotsky pensava sobre genialidade. Revista Educação. PUC: Campinas, 2001.  – Os Grandes Artistas: Van Gogh, Renoir, Manet. Editora Nova Cultura LTDA, São Paulo: 1991.[1] Pensando-a em sentido amplo, e não História constituída como “Escolas científicas” a partir do século XIX. – [2] Disponível em: <http://www.urutagua.uem.br/008/08soc_bariani.htm>. Acesso em 4 de dezembro de 2016.





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