CrônicasRelacionamentos

Tá tudo tão distante…

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Homens e mulheres têm viajado pra lá e pra cá e, mesmo quando em casa ou no trabalho, não param de se comunicar com nativos de outras cidades através das redes sociais. Logo, é natural o incremento de parcerias amorosas entre pessoas que residem a quilômetros umas das outras.



O par protagonista do filme Ponte Aérea, que estreou ano passado, olha só, ano passado em Porto Alegre, é só mais um entre tantos. Ela, interpretada por Leticia Colin, mora em São Paulo, e ele, vivido por Caio Blat, no Rio. Considerando o tamanho do planeta, praticamente vivem a uma esquina de distância.

No entanto, o ótimo e delicado filme de Julia Rezende vai além desse pequeno inconveniente geográfico. O que vemos na tela é o retrato da fragilidade das relações numa era em que todos estão ocupados demais para se entregar a alguém.

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O casal do filme é jovem, ambos estão em início de carreira e, segundo a diretora, são representativos de sua geração: fazem mil coisas ao mesmo tempo, atuam em todos os canais e mídias possíveis, querem engolir o mundo, mas morrem de medo de ser engolidos por ele.

Afinal, com tantas solicitações, compromissos, projetos e alternativas, sobrará tempo para se dedicar a um envolvimento profundo?

Não sei se esta é uma questão só dos jovens. Hoje, entre os avulsos de todas as idades, existe o mesmo pé atrás. Os solteiros que nunca foram casados antipatizam com a ideia de se amarrar sem antes fazer um test drive em todas as outras opções possíveis — o que levaria umas três vidas, por baixo. E os solteiros que já passaram por uma ou duas uniões estáveis e já viveram seu “eterno enquanto dure” não morrem de amor pela ideia de ter que voltar a prestar contas, negociar, conceder, programar, comprometer-se.

Virou exagero se doar. A ordem agora é se emprestar. Toma aí um pouquinho de mim, mas me devolve.


Resultado? Um sem-número de relacionamentos a distância, mesmo o casal sendo vizinho de bairro. Os dois sentados à mesma mesa, mas cada um teclando seu smartphone. Os dois saindo de férias, mas cada um para um destino diferente. Os dois com problemas, mas sem disposição para conversar a respeito. Os dois com muitos planos, mas sem nenhuma intenção de abrir mão do seu sonho em função do sonho do outro. Os dois com dúvidas, mas sem reparti-las para não ter que se explicar muito. Os dois juntos, mas não por inteiro, que nada mais é inteiro, tudo é fragmentado.

É uma contingência dos novos tempos, reconheço, mas não impede que a relação evolua. Que o namorico, a ficada, o rolo, o lance, o caso, a pegação se transforme em amor. E amor a gente não empresta, entrega de bandeja. É quando a distância deixa de existir. Mesmo um lá e o outro acolá, ela será suprimida por algo que verdadeiramente unifica: vínculo.

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Publicado orginalmente em: Café sem culpa


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