ColunistasComportamentoReflexão

A tal “personalidade forte”!



“Uma vez tomada a decisão de não dar ouvidos, mesmo aos melhores contra-argumentos: sinal do caráter forte. Também uma ocasional vontade de ser estúpido”.

(Friedrich Nietzsche)


Essa semana estava na academia e ouvi uma mulher dizer em alto e bom som no telefone: “Quando eu digo não é não! E não me interessa o que eles pensam a respeito desse assunto. E não se fala mais nisso”!

Eu não sei com quem ela estava falando ao telefone, mas o que ela disse me fez pensar: é incrível como esse tipo de comportamento está muito presente no nosso dia a dia! Pessoas inflexíveis, vistas como “de personalidade forte”, que dificilmente mudam de opinião. As tais “donas” da verdade.

É o tipo de pessoa que tem necessidade compulsiva de tentar provar que sempre está certa, de tentar impor suas crenças e argumentos a qualquer custo.

O mais engraçado é que, quando aquela mulher da academia desligou o telefone, imediatamente o seu personal trainer olhou para as pessoas que estavam por perto, um pouco perplexos com a sua “delicadeza”, e disse: “É o jeito dela. Mulher de personalidade forte”!


A TAL PERSONALIDADE FORTE - FOTO 01

Eu te pergunto, querido leitor: Será que essa “personalidade forte” é mesmo uma boa qualidade e vista com bons olhos pelos outros? Será que por trás dessa “personalidade forte” não existe na verdade uma pessoa insegura e com medo de enfrentar a realidade?

Quando eu digo insegura e medrosa me refiro ao medo de errar, de encarar novos desafios, novidades, mudanças, dúvidas, e, principalmente, medo de conhecer a si mesma e encarar as suas próprias limitações. Pessoas tidas como inflexíveis normalmente tem dificuldade de relaxar e possuem posturas críticas exageradas em relação a si mesmas e com as pessoas ao seu redor. Tais características podem ser entendidas como perfeccionismo, intolerância e teimosia.

Mas como se tornar uma pessoa mais flexível?


Acredito que tudo se desenvolve como um processo. A primeira etapa é identificar em você este comportamento. Ao detectar a tal “personalidade forte”, deve-se buscar treinar a flexibilidade aos poucos com as pessoas mais próximas a você, como o seu parceiro ou membros da própria família.

Refiro-me a situações corriqueiras: aceitar ir naquele restaurante que você não é tão fã mas o seu parceiro adora, ou adotar a mesma atitude para ver um filme, por exemplo. Aos poucos, tente aceitar, sem retrucar, opiniões com relações a temas mais polêmicos. Lembre-se que você não precisa demonstrar a sua opinião sobre tudo! Apenas ficar em silêncio e escutar o outro já basta. Do contrário, um simples encontro pode ser extremamente cansativo! Afinal, se você não conseguir demonstrar flexibilidade com as pessoas mais próximas, dificilmente conseguirá mudar este comportamento com colegas de trabalho ou estranhos! Como recurso, até mesmo a terapia deve ser utilizada, caso este comportamento esteja atrapalhando a sua vida.

Aprender a encarar as críticas e opiniões divergentes das suas é uma variável importante de aperfeiçoamento pessoal e, com certeza, à medida que você toma consciência disto, invariavelmente a sua vida se torna mais simples.

E não tenha receio, por exemplo, de mudar de opinião e achar que isso vai depor contra a sua imagem.


Na maioria das vezes, a opinião dos outros sobre nós é bem mais favorável e positiva do que imaginamos em nossa insegurança. Sendo assim, mudar de opinião pode ser visto como uma virtude, associada, inclusive, à humildade.

A TAL PERSONALIDADE FORTE 02

Estar mais atento e aberto aos sentimentos transmitidos pelos outros e por suas opiniões, demonstrando respeito e atenção, é certamente o caminho a se seguir. Entretanto, enquanto enfrentamos nossas limitações, é importante prestar atenção às nossas resistências e ao chamado “ouvido seletivo”, pois podemos descobrir muito, através destes, sobre a natureza das barreiras que nos separam do outro. E este é realmente um exercício importante nos dias atuais, pois vivemos tempos de fortes mudanças sociais e comportamentais.

A intolerância virou lugar comum e todos tem opinião para tudo. A escuta atenta demanda empatia e tempo, recursos raros de serem encontrados em nossa sociedade. Portanto, desenvolvê-la torna-se uma necessidade, caso queiramos alterar a ordem das coisas.


Por isso, é importante buscarmos o meio termo, a “personalidade equilibrada” aquela que não é nem “forte” nem “fraca”, mas sim moderada, na qual o bom senso vem sempre em primeiro lugar, e é pautada pelo autoconhecimento.

Então pergunto a você, caro leitor: Como tem “malhado” a sua inflexibilidade ultimamente?

A inveja e a maçã…

Artigo Anterior

Ai, que preguiça!

Próximo artigo

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site.