Tão certo quanto o sol se levanta, um dia os filhos voam…

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A vida de pai e mãe reserva alguns fatos inevitáveis.



Um deles é este: um dia, os filhos crescem, aprendem a bater asas, ensaiam pequenos vôos rasantes, levam alguns tombos, tentam de novo, até que, finalmente, no rastro de uma corrente favorável sentem-se seguros para empreender vôos mais longos, e voam como águias de olhar penetrante, símbolo de força, coragem, e visão.

Tão certo como o sol se levanta, um dia, os filhos voam.

E é bom que voem mesmo.


A liberdade recém conquistada simboliza um atestado de independência emocional e financeira, e a certeza de que pai e mãe desenvolveram um padrão de amor eficaz na educação: deram-lhes raízes e asas.

Preparar um filho para seguir o curso individual sem perder as suas raízes, e sem cortar-lhe as asas, é a grande missão que todo pai e toda mãe deve treinar desde as primeiras fases.


Esse aprendizado inicia quando o pequeno começa a engatinhar.No esforço de jogar o quadril para frente, a fim de buscar alguma recompensa, o bebê não pode ser ajudado, apenas observado.

O aprendizado continua quando ele, finalmente, se levanta, ainda hesitante, e ensaia os primeiros passos.

Correr em sua direção a cada tentativa frustrada, pode evitar alguns tombos, mas também impede o desenvolvimento mais rápido da aquisição motora. O tombo faz parte, e por mais que doa assistir à queda, é necessário oferecer apenas a mão que ampara, e não o colo que tolhe.

Caindo, é imperativo ajudá-lo a levantar-se, e encorajá-lo a tentar de novo.

Vale para toda a vida. Faz parte do processo.

Oferecer raízes e asas é um duro e necessário aprendizado, um desprendimento que pode trazer muitas preocupações e muitas negociações internas, sobretudo nesses tempos em que o mundo parece ser um lugar demasiadamente hostil.

A maioria de nós sabe disso, faz tudo certinho, sofre as agruras da espera, não dorme sem ouvir o portão da garagem, se angustia com alguma eventual demora, luta para não telefonar ao primeiro atraso, consulta o relógio a todo tempo, permite saídas noturnas que significam noites insones, aguenta firme as próprias angústias e medos, ora sem cessar, experimenta a impotência da entrega, possibilita que os limites sejam amplificados em círculos concêntricos cada vez maiores, e faz tudo isso porque reconhece que ainda que o filho seja o risco de um amor irremediável, um cristal que a qualquer momento pode se quebrar,- posto que mortal, – não há outro jeito: é isso ou isso!

São as regras do jogo: para o filho vencer, precisa jogar, e se ele ganhar, vivemos com ele, e se ele perder, morremos com ele.

Um filho morre e a paternidade não acaba. Do outro lado da vida o amor irremediável o acompanha.

Felizmente, nem tudo são tragédias.

Quando o jovem finalmente vence todos os perigos reais e imaginários, próprios da juventude, que estatisticamente é a mais perigosa das fases, vem a hora de “decolar ponto com” e ainda que voe em céus de brigadeiro, tempestades nos ameaçam, agora sob o formato da Síndrome do ninho vazio.

A síndrome do ninho vazio é um conjunto de sintomas que envolve sensação de perda, de frustração, de inutilidade, acompanhada de sentimentos de desvalia. O processo parece ser mais doloroso para a mãe do que para o pai, mas em certa medida os dois sofrem dessa síndrome. Apenas que um fala, e o outro cala.

Algumas mães, quando os filhos casam, e vivem na mesma cidade, pensam que podem, de alguma maneira, driblar esse sintomas, transferindo as suas atribuições para o novo endereço. Querem participar de tudo, ainda que de um jeito discreto, delicado, que não incorra em abusos, e podem caprichar tanto na delicadeza que são capazes de jurar que não estão invadindo o território alheio.

Vou dizer uma coisinha só: sogra inteligente respeita a cozinha da nora. Sogra inteligente, nem manda a comidinha preferida do filho, mesmo que seja embalada no mais lindo Tapeware, com a recomendação de que não precisa voltar.

Outro engano que se comete, tanto por sogra, quanto por sogro: dizer no dia do casamento para o genro ou para a nora: “ganhei mais um filho, ganhei mais uma filha.”

Mentira.

Na verdade, mentira é um termo pesado demais. Digamos que seja meramente uma conceituação inadequada e precipitada.

Filho é filho, genro é genro, filha é filha e nora é nora.

Os papéis podem se confundir quando tudo vai bem, mas basta haver um conflito entre o novo casal para que a legítima paternidade seja restabelecida.

Mesmo que os respectivos pais orientem os seus filhos para a realidade dos fatos, com isenção de ânimo, se todos os esforços se revelarem infrutíferos, e houver uma separação, cada um dos componentes do casal será acolhido, amado, recebido, compreendido, e defendido, PELA FAMÍLIA QUE O GEROU.

Cada papai e cada mamãe puxará a brasa para a sardinha do filho que pariu, e o outro que vá para a casa da mãe que o pariu.

O que comprova que genro e nora não são filhos.

Na verdade, nem o Código Civil os reconhece como herdeiros da família do cônjuge: nora e genro não herdam em processo sucessório.

Papéis sociais familiares delimitados são bem vindos para evitar constrangimentos e fortalecer o novo núcleo que se forma. Nada mais postiço do que uma sogra querendo ocupar o lugar da mãe do genro ou da mãe da nora. Sai fora, sogra.

Nada mais desajeitado do que uma nora ou um genro tentando ocupar o lugar da filha ou do filho.

Sogra é sogra, mãe é mãe, filho é filho, nora é nora, genro é genro, mesmo que sejam as pessoas mais sensacionais com as quais os nossos filhos escolheram casar-se.

O que não significa que haverá animosidades ou ausência de sentimentos. Dá para amar o novo membro da família com realidade, dignidade, bom senso, lucidez, e respeito.

Com os anos, é possível que o teste da compatibilidade tenha sido concluído favoravelmente, mas o que vier antes disso é fantasia, e a vida não é um bloco de carnaval.

Qual a solução para amenizar a síndrome do ninho vazio?

A solução é viver a própria vida, e não a vida dos filhos. Desde o início, em todo o tempo, até a morte, para sempre, amém!

Cada pessoa deve se localizar dentro dos seus dias, dos seus interesses, das suas esperanças, ou das suas desesperanças, mesmo que isso signifique alguma dose de solidão necessária.

A individualidade é um bem muito precioso que precisa ser respeitado, e é também a única forma de perceber-se no universo como parte de um todo distinto de si, e ao mesmo tempo, um complemento de si.

O padrão de amor dependente, típico de pais e mães devotados, daqueles que passam a vida sem trancar a porta do quarto do casal, e sem permitir que os demais membros da família o façam, aniquilam a expressão pessoal, frustrando todos os envolvidos.

Relacionamentos interpessoais possessivos acabam evoluindo para o risco do “tudo junto e misturado,” tão nocivo para as constelações familiares.

Nunca é tarde para romper com esse padrão.

Há outra atitude muito inconveniente nestes tempos de amores compartilhados pelas redes sociais: exibir a posse do filho.

Parece que basta a “criança” mostrar que cresceu, que prosperou, que viajou, que se destacou, para a mamãe postar um recado subliminar que reforça a posse, no meio de amigos e colegas de trabalho.

Não recomendo! Pode não ser explicitado o desagrado, mas vai por mim: seu filho não gosta, ele ficará constrangido com um comentário melado do tipo “hashtag filhinho amor da minha vida”, enquanto pessoa pública que exerce um cargo empresarial, e uma carreira corporativa.

A exibição do amor devotado tem hora e lugar para se manifestar, sempre de maneira privada. Na arte de bem viver, o bom senso para amar, e o lugar adequado para expressar o amor, é a medida perfeita.

Na dúvida, siga esta máxima que, com todo o respeito, emprestei das Sagradas Escrituras: É necessário que seu filho(a) cresça e que você diminua.

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* Matéria atualizada em 18/01/2017 às 6:04






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