Reflexão

Ter depressão é viver com um “câncer na alma”

Capa Ter depressao e viver com um

A discussão sobre saúde mental aumentou com os anos, mas uma pessoa depressiva ainda carrega um tabu em suas relações interpessoais.



O avanço do tempo traz consigo muitas coisas benéficas. Individualmente, ele representa maturidade, sabedoria e uma percepção de si mais aguçada. No coletivo, para a sociedade, ele pode representar novas conquistas para beneficiar a vida de todos.

Foi isso o que observamos sobre o crescimento das discussões sobre saúde mental. O que antes nem era falado, mas tachado como frescura com tanta insensibilidade, hoje tem espaço e o reconhecimento de que todos nós, sem exceção, sofremos com tormentos mentais.

Mas, será que esse novo discurso realmente se sustenta? O que acontece com nossa sociedade, atualmente, é que as mudanças sistêmicas são todas registradas nos murais de recordações digitais em que nossos aparelhos tecnológicos se transformaram.


O que por um lado é muito interessante, pois temos um catálogo dos pontos altos de nossa existência, e são essas ferramentas que permitiram a expansão das discussões de que tanto precisávamos ter, por outro, temos uma sociedade que parece funcionar muito bem pelas telas, mas basta uma olhada rápida para fora e então perceber que algumas narrativas ainda não atingiram o “mundo real”.

Por mais impactante que seja um movimento nas redes, de nada adiantará se não for transposto para o mundo real. Pensamos que nossas telas seriam como espelhos, refletindo quem somos, mas creio que estão mais para quadros em branco, onde podemos projetar como queremos ser.

E, infelizmente, na discussão sobre saúde mental não seria diferente. Inclusive, arrisco dizer que essas mesmas redes agravam muitos casos. Com todo o avanço que tivemos, por que muitas pessoas passando por questões psicológicas ainda recebem tratamento insensível?

É fácil se intitular um aliado quando não se tem que lidar com alguém depressivo cotidianamente. No ao vivo, no para muitos desconhecidos “mundo real”, a mesma compreensão que vemos em relatos emocionantes não é estendida para quem sofre fora das telas.


A verdade é que muito disso se deve ao fato de a maioria das pessoas não saber bem como a depressão funciona, o que é curioso, dado o maior número de histórias sobre quem descobriu – ou assumiu – depois de tanto tempo que tem depressão.

A tarefa de tentar defini-la é um desafio, pois a traiçoeira se apresenta de diferentes formas para cada um, mas é preciso que todas saibam com pelo menos alguns pontos comuns sobre o sofrimento de quem é afligido por esse mal.

A depressão é como se fosse o “câncer” da saúde mental. Faço essa comparação porque é como se sentíssemos adoecer nossa parte mais importante – a mente, a alma –, e dali começamos a nos observar perdendo as vontades, desinteressando-nos por tudo. Muito sobre isso já foi falado, mas a imagem do depressivo nada tem a ver com a pessoa que fica se lamuriando pelos cantos, num poço infinito de lágrimas.

Ainda que existam sim muitos momentos de tristeza, o retrato está mais para uma cara estagnada, sem expressão positiva ou negativa, anestesiada a tudo. A depressão adoece a alma e é frustrante e assustador ver a própria figura se esvair. De certa forma, é até compreensível que, mesmo com mais relatos sobre isso, ainda seja difícil para quem não tem ou convive com quem tem de entender a necessidade de reagir à doença.


Em partes, estamos todos aprendendo a lidar com isso de uma nova forma todos os dias. Se tivesse de fazer um pedido com este texto, seria para que você que diz estar do nosso lado, que diz querer nos ajudar, que, por favor, faça isso, mas faça com consciência!

Não trate a pessoa com depressão que você conhece como um alienígena nem como alguém que precisa da sua benevolência para ser salvo. Podemos não estar em nosso melhor momento, mas sabemos que ainda somos seres humanos capazes, sua ajuda pode ser uma ofensa, se não for bem calculada.

E se quer ajudar no tratamento de fato, ajude seu amigo a procurar um profissional. Por melhor que sejam as intenções, às vezes, seu papel será de apoio e não de curador. Uma escuta atenta e acolhedora e a ajuda psicológica podem fazer maravilhas. A depressão nos tira de nós mesmo, então, para ajudar, nada melhor do que nos tratar com dignidade e o respeito que merecemos em todos os momentos, não somente neste.


Atrizes da série “Maid” também são mãe e filha na vida real. Esse foi seu primeiro trabalho juntas!

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