O Segredo

Todos nos tornamos pais dos nossos pais quando se aproxima a partida deles

Todos nos tornamos pais dos nossos pais quando se aproxima a partida deles
Comente!

Uma profunda reflexão sobre um momento delicado da vida pelo qual muitos de nós passaremos um dia.

Uma das realidades mais dolorosas à qual somos apresentados todos os dias é a de que, seguindo a lei natural da vida, os nossos pais partirão antes de nós.

Pensar em perder essas pessoas, nossas principais apoiadoras e que nos amam mais do que qualquer outra pessoa, é assustador e sempre deixa os nossos corações muito apertados.

No entanto, para muitos filhos, antes que os pais partam, existe outra etapa a ser vivida, aquela em que eles se tornam pais dos próprios pais.

O tempo e os anos de muito trabalho cobram um preço muito elevado dos corpos e mentes dos nossos pais, por isso, quando chega perto da hora de partir, é comum eles não terem mais a força e disposição de antigamente.

Nossos pais e mães, que durante toda a nossa vida foram exemplos de força, disposição e muita energia, sempre prontos para enfrentar qualquer tipo de desafio e batalhar para que nunca nos faltasse nada, agora demonstram a sua fragilidade, deixando claro que nenhum ser humano é de ferro ou eterno.

A sua cabeça branca, a pele enrugada e os movimentos lentos denotam que eles não são mais os mesmos e que chegou o nosso momento de entregar a eles todo o amor, cuidado e carinho que eles sempre nos ofereceram desde o nosso primeiro dia neste mundo.

Nesses momentos, deixamos de ser os seus filhos e passamos a assumir o papel de cuidadores, responsáveis por alimentá-los, dar-lhes banho, medicações e tratá-los com muita paciência e zelo.

Abandonamos o papel de recebedores e passamos a ser os principais responsáveis por fornecer aos nossos pais tudo aquilo de que eles precisam para viver o mais confortável possível, muitas vezes reorganizando as nossas rotinas para que eles sejam devidamente acolhidos.

No primeiro momento, essa realidade pode parecer algo negativo, não necessariamente pelas novas funções que assumimos, mas por aquilo que ela representa: o começo de uma despedida.

No entanto, para ajudar a lidar com esse sentimento, é sempre válido analisarmos esse momento sob uma óptica diferente, enxergando toda a beleza e a profundidade emocional presente nele, bem como a oportunidade de começarmos a nos despedir de nossos amados da melhor maneira possível.

Poder cuidar de nossos pais com dedicação e amor em sua etapa final de vida é uma honra, um privilégio, pois nos permite retribuir um pouco do muito que sempre fizeram por nós, abrindo os nossos corações para um tipo diferente de amor e conexão, que nos acompanhará por toda a vida.

Quando vivemos essa parte da vida com intensidade, ficamos com tranquilos, e ao nos despedir dos nossos amados pais, ficaremos com o sentimento de saudade, mas também o de missão cumprida, sabendo que os cuidamos da melhor maneira possível e que eles nunca duvidaram do nosso amor.

Se você é um filho que acompanhou os seus pais nas últimas etapas da vida deles, trocando de função com eles, sabe que, apesar de muitas vezes doloroso, esse é um momento de muita importância emocional, que poderá nos fortalecer quando já não os tivermos ao nosso lado

.
Para complementar ainda mais essa reflexão, deixaremos logo abaixo um texto escrito por Fabricio Carpinejar, que nos ajuda a compreender a responsabilidade dos filhos diante da velhice dos pais.

Há uma quebra na história familiar, onde as idades se acumulam e se sobrepõem, e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.
É quando o pai envelhece e começa a trotear, como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e intransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela — tudo é corredor, tudo é longe.
É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar a própria roupa e não se lembra de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.
Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:

– Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

— Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali.

Comente!

“Múmia” de dinossauro recentemente descoberta é tão bem preservada, que tem até pele e barriga intactas

Artigo Anterior

O que é melhor: perder quem você ama ou se perder tentando forçá-lo a ficar?

Próximo artigo