Traduzir-te – Uma homenagem a Ferreira Gullar



Num dia de dezembro, perto do fim de mais um ano, Ferreira Gullar fechou os olhos num descanso de paz.

A paz do colo de Alzira. A paz da juventude revigorada. A paz do reencontro com os que já tinham feito viagem. A paz de ver o filho de novo. O sorriso do filho. Os abraços do filho. O filho menino, o filho homem. Na sua cantiga para não morrer – aquele que dizia com letras e vozes, com entonações e lampejos que não é inteligente quem nunca muda e que o humano já é, por si só, contradição – brinca com alguma dor de saudade, com algum medo embebido pelo findar do tempo de estar acordado.

“Quando você for se embora, me leve” – era um pedido para não ficar sozinho. Não queria morrer, mas não queria coexistir. “Se acaso você não possa me carregar pela mão, leve-me no coração” – era uma súplica em quase infância beirando uma eternidade acompanhada. “Se no coração não possa por acaso me levar, leve-me no seu lembrar” – era um delírio em sofreguidão, aquele receio do esquecimento, aquele pesadelo de não saber mais nada da própria identidade. “E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento, leve-me no esquecimento” – era uma música, era um lamento, um alento, um tormento.

Gullar fez uma cantiga para não morrer e morreu. Morreu como tudo o que é vivo morre. Aquele alguém a quem ele tanto se referia – menina branca de neve – veio buscá-lo quando ele teimava em ter 86 anos.

Não sei, garoto José, se essa moça o levou no coração, na lembrança ou no esquecimento, mas sei que seu nome alcançou tantos abraços quanto coubessem nos versos.

Os preços do feijão, do arroz e as contas para pagar ainda não cabem na poesia, é verdade. É uma pena! Mas a música coube. E sua cantiga para não morrer viajou encantando por aí. Então, se seu corpo morreu, parou de acordar, deixou de viver, sua alma voa mais livre do que nunca. Que haja um ron-ron de carinho bem ao seu lado! Você, que falou de afeto, você, que compunha paradoxos memoráveis, você, que inventou seu nome, trate de não nos esquecer também.

Leve-nos no seu coração, na sua lembrança ou no seu esquecimento, mas nos leve. Agora tudo é leve e o vento no rosto não é mais sonho…

Assinado: “mulher de nuvens”




Direitos autorais da imagem de capa: artishockrevista






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