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Traições, areias que viram vidro, tempo e ampulhetas…

Escrever sobre determinado assunto, não é tão simples assim, mesmo para aqueles que tem como instrumento de trabalho as palavras. Não somos cantores ou bandas, com repertórios pré-definidos e ensaiados. O que criamos, não está na ponta da língua. Muitas vezes, uma produção musical chega a levar meses. Porém, o deadline (tempo máximo para realização de uma tarefa) de um jornalista, na grande maioria dos casos, dura apenas algumas horas. No dia em que falta inspiração, isso é um problema. Em outros, quando a criatividade grita, torna-se uma situação corriqueira, fácil de ser resolvida. Afinal, escrever é um ofício, é um dom.



Recebi um pedido inusitado nesta semana: escrever sobre traição. Então, “senta lá, que vem textão”.

O pior da traição, não é o ato em si. É o sentimento que esse ato deixa em nós. O ser humano, por sua essência, é composto de características positivas e negativas. Acredito que estejamos aqui para dar continuidade a uma constante evolução. Espiritualmente falando, somos hoje, melhores do que fomos ontem. O egoísmo, a inveja, a superficialidade, a luxúria, a raiva… Tudo isso está em nós. Em alguns, de maneira mais potencializada. Em outros, pelo grau de serenidade, mais comedido, controlado. Mas inevitavelmente, somos sujeitos a erros e falhas.

Se tem algo que aprendi nesta vida é que não podemos, jamais, esperar que o outro seja e se porte como nós. Somos seres em graus diferentes de evolução, com princípios e valores completamente conflitantes. E é aí que está a grande chave da questão. Quando somos traídos, das diferentes formas que se possa cometer uma traição, somos inundados por uma angústia ímpar, por um sentimento de revolta, por questionamentos que nos levam a pensar: “Justo comigo? O que foi que eu fiz? O que levou com que ele(a) fizesse isso?”.

Primeiramente, é importante destacar que todos nós passamos ou passaremos por isso. Trairemos ou seremos traídos. Quem sabe façamos os dois? Somos traídos quando confidenciamos algo a alguém e essa pessoa compartilha nosso segredo com outra pessoa. Somos traídos quando fazemos planos com alguém e somos descartados no meio do caminho. Somos traídos quando estabelecemos um relacionamento único e percebemos que só nós agimos desta maneira. É tão amplo o universo da traição, que pode ser considerada como tal, até aquela que cometemos contra nós mesmos.


Uma coisa é fato: quanto maior for o grau de confiança, o comprometimento por algo, ou amor que sentimos por alguém, maior se torna a traição.

O pior de tudo é que nunca esperamos por ela. E, ainda, cabe destacar que a traição, quando persiste, quando deixa de ser por uma questão de oportunidade ou de escolha, acaba virando uma questão ligada ao caráter, ou melhor, a ausência dele. A traição da alma, por exemplo, é bem pior que a da carne.

E tem horas que a traição vira uma bola de neve, alimentando relacionamentos e situações que já não existem, que estão sendo sustentados apenas por estarem ligados a aparelhos que garantem uma respiração superficial, mas que se vê, notoriamente, que o “sucesso” é provisório. É como ser traída, perdoar sem realmente fazê-lo, não esquecer, pois, a ferida não foi realmente curada, trair com a desculpa que não foi você que cometeu tal gesto pela primeira vez, mas sim o outro. É passar a ser e a agir com base naquilo que não está em nós, na nossa essência, que nos agride moralmente. E, o que é pior, jogar a culpa de nossos atos em atos que os outros cometeram conosco. Isso é trair a nós mesmos.

Não acredito que a traição se dê assim, do nada, sem mais nem menos. Quem trai sem peso algum na consciência, é uma pessoa muito ruim, muito maldosa. Acredito que as vezes, se comete uma traição, simplesmente por não resistir. Uma promoção, a chance de ser o centro das atenções, um corpo mais em forma ou a atração pelo novo, acabam falando mais forte. Afinal, somos feitos de carne e osso. Somos humanos. E não nos orgulhamos dos nossos erros, ao contrário.


O que deve ficar bem claro é que às vezes, o que quebra a confiança, não era tão forte quanto pensamos ou quanto suportamos sustentar. Víamos rochas, onde existiam plumas. Imaginávamos muralhas, onde estavam instalados fios de seda. Sentíamos dependência, do que não dependia tanto assim da gente. E é isso que machuca, constatar que nem tudo depende da gente. Por mais que nos entreguemos, por mais que sejamos verdadeiros, uma relação não existe sem um outro. E esse, não é e não age igual a nós.

Não existe relacionamento perfeito, posto visto que a perfeição não existe em nós mesmos, quiçá naquilo que construímos.

Li uma vez que “não é preciso conhecer todas as pessoas do mundo para aprender que todos erram, mentem, traem e tem um lado verdadeiramente traiçoeiro. Se você conhece a si mesmo, terá consciência disso”.

Fernanda Souza tão bem definiu: “A traição é perita em arrancar esperanças e sonhos, age como areia lançada ao fogo”. E quando isso acontece, quando traímos ou somos traídos, quando queremos reparar os erros de uma relação ou o erro de mantê-la tendo a mesma terminado, cabe a nós, e só a nós, exercitarmos a resiliência (propriedade que alguns corpos apresentam de retornar à forma original após terem sido submetidos a uma deformação elástica). E, agir como areia lançada no fogo, pode não ser tão ruim assim, afinal, é assim que se recria, que, metaforicamente e realmente, transforma-se areia em vidro.

Que façamos do tempo, uma grande ampulheta de vidro, onde seja possível contemplar cada grão de areia, que contribui, para a nossa evolução. Afinal, tem situações que são firmamento. Outras, livramento.

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