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Ucrânia veta ex-militares do Brasil e diz ser por causa de Bolsonaro

Foto: Unsplash
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Ex-militares dispostos a se alistar dizem que a Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia está descartando o recrutamento de brasileiros devido ao posicionamento de Jair Bolsonaro (PL) em relação ao conflito.

Dois brasileiros que tentavam o alistamento ouvidos pela reportagem atribuem o veto ao silêncio de Bolsonaro após Sergei Lavrov, ministro de Relações Exteriores da Rússia, incluir o Brasil na lista de países que “não dançarão ao som dos Estados Unidos”.

Bolsonaro tem evitado criticar a Rússia. Antes da invasão, ele visitou o presidente russo Vladimir Putin e expressou solidariedade ao país, que já fazia ações militares na fronteira com a Ucrânia. Após a deflagração da guerra, porém, o governo do Brasil votou a favor da resolução da ONU que condena o ataque da Rússia.

‘Voluntários do seu país não podem se unir à legião’

“É da legião estrangeira? Estou me preparando para ir à Ucrânia, mas tive a informação de que vocês não estão mais aceitando voluntários do Brasil. Isso é verdade?”, perguntou em inglês o ex-militar mineiro Fabio Júnior de Oliveira, 42, que serviu como sargento das Forças Armadas entre janeiro de 2005 e novembro de 2006.

“Sim, senhor. Infelizmente, os voluntários do Brasil e de alguns outros países não podem mais se juntar à legião”, respondeu um homem que se apresentou como representante da unidade formada por estrangeiros.

“Mas eu não entendo. Eu tenho experiência militar. E eu…”, continuou Fábio, interrompido em seguida: “Eu entendo, senhor. Muito obrigado. Mas [os voluntários] do seu país não podem ser aprovados para se unir à legião”. Fábio, então, questionou se a recusa estaria relacionada à postura de Jair Bolsonaro. “Sim, é por isso”, respondeu.

A reportagem entrou em contato com a Legião Internacional de Defesa Territorial da Ucrânia, que confirmou exclusão de voluntários de “alguns países”. Contudo, não confirmou se o Brasil estava nessa lista por “questões de segurança” “Podemos confirmar que voluntários de determinados países estão sendo vetados com maior frequência”, afirmaram, por meio de seu perfil no Instagram.

Também foi pedido um posicionamento do Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty), mas não obteve resposta.

“Sentimento é de vergonha”, diz brasileiro

Em entrevista, Fábio disse ter tomado a decisão de telefonar diretamente para a legião no último sábado (19) após ter recebido a informação de que um paramédico com experiência militar e outros dois brasileiros teriam sido descartados pelas tropas ucranianas na região de Lviv, perto da divisa com a Polônia.

No dia seguinte, disse ter ligado para a Embaixada da Ucrânia na Polônia. E, nesta segunda-feira (21), informou ter entrado em contato com a Embaixada do país invadido no Brasil. Em ambos os casos, onde obteve a mesma resposta.

“Eu tenho todos os emails confirmando o alistamento. Mas a situação mudou depois do pronunciamento do ministro russo e do silêncio de Bolsonaro. Fomos excluídos e não podemos mais integrar a legião estrangeira por causa da posição do presidente em relação à guerra na Ucrânia. O sentimento que a gente tem é de vergonha”, disse o ex-militar Fábio Júnior de Oliveira.

O ex-militar faz parte de um grupo de pessoas que dizem querer se voluntariar para combater pela Ucrânia e que buscavam recursos com vaquinhas virtuais para viabilizar os gastos com passagens aéreas até a fronteira com a Polônia, onde se apresentariam junto às tropas ucranianas. Pelo menos por enquanto, os planos de alistamento estão suspensos.

“Meu voto não seria mais dele”

Dono de uma empresa de vigilância e segurança privada, o capixaba Bruno Bastos, 36, que integra o mesmo grupo de Fábio, diz ter se decepcionado com Bolsonaro.

“Se o Bolsonaro apoia o Putin é porque também apoia esse genocídio que está acontecendo na Ucrânia. Como as pessoas vão olhar para os brasileiros no exterior? Me sinto humilhado com essa situação. Votei no presidente em 2018. Mas meu voto não seria mais dele até que ele dê um esclarecimento”, disse Bastos, que serviu no Exército entre 2004 e 2005.

A reportagem conseguiu o contato do homem que se identificou como o paramilitar brasileiro barrado na fronteira entre a Polônia e a Ucrânia, que optou pelo anonimato e confirmou ter sido barrado. “Ficamos quatro dias em território ucraniano, mas não fomos aceitos pelo exército. Falaram que o problema era o nosso país”, respondeu em mensagem pelo WhatsApp enviada por um celular do exterior.

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