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UM CONTO BREVE SOBRE SAUDADE

Há dias em que a solidão aperta o peito e as lágrimas insistem em rolar, principalmente em dias tristes como os de inverno.


Quando acordei, fiz meu ritual matinal: coloquei o roupão, esquentei a água, fiz café e fui sentar na varanda. Acendi um cigarro e depois de uma golada do café, veio um sentimento ruim; sentimento de saudade de você. Saudades das nossas manhãs juntos, com direito a café na cama depois do nosso carinho matinal. Lembrei das brincadeiras, quando tomávamos banho juntos, ou de como me irritava quando me acelerava para irmos trabalhar.

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Lembrei que eu fui a primeira a manifestar o desejo de ir pra cama e, você, o primeiro a dizer te amo. Lembro do quantos ríamos quando íamos viajar para a casa da sua mãe e não podíamos fazer barulho a noite, de nossas viagens de última hora em nossa moto veloz, de todos os postos de beirada de estrada que conhecíamos, das cidades que visitávamos. Lembrei de quando deitamos na carroceria da camionete, lá no sítio, para observar o céu estrelado. Depois de deslumbrados com a diferença do céu da cidade, falamos sobre Deus.


Há cinco anos, fizemos juras de amor, no alto de um penhasco que dava para o mar. Você prometeu casar-se comigo, assim que o próximo ano virasse, precisávamos apenas nos estabilizar. E onde está você agora? Se não em minhas palavras escritas? Você está em cada canto da nossa velha casa, de todas as estradas percorridas, dessa varanda, onde brigamos tanto por causa do meu vício do cigarro. Bateu uma rajada de vento e eu fiquei pensando no que seria pior, a sensação de vento cortante ou a saudade de alguém que, eu sabia que não iria voltar, nunca mais.

Para tentar amenizar a saudade, lembrei de todas as vezes que gritou comigo, das nossas brigas, nossos términos, das vezes em que me traiu a confiança. Chorei mais ainda, pois, apesar de tudo, ainda guardava um resquício de sentimento pelo homem que mudou minha vida e se foi. Quantas vezes nos perguntamos o porque dessa paixão tão animal entre duas pessoas totalmente diferentes e a resposta sempre era que Deus nos uniu para aprendermos um com o outro e só. Sempre soubemos que nosso relacionamento não iria durar, mas nós tentamos.


A campainha tocou, era você. Por coincidência do destino, nosso trabalho era interligado e tínhamos uma reunião, porém, como sempre, ele chegou mais cedo, para tomar café. Ao me ver de roupão, ainda, sorriu e pediu para que não me atrasasse, me abraçou e disse bom dia, pacífico, como me chamava. Sorri de volta, apaguei o cigarro e fui para o quarto, me arrumar. Agradeci a Deus por ter amado, agradeci por tê-lo presente ainda, em minha vida e por ter transformado tanto amor em carinho.

Quando voltei a varanda, disse “vamos, criatura, trabalhar!”, ele me deu o braço e seguimos à reunião.





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