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Um pouco de expectativa cai bem!

A expectativa é a mãe das frustrações”, depois de “CPF na nota, senhor?” e “O dólar subiu de novo!”, é a frase que mais tenho escudado pelos botecos e esquinas da vida. A afirmação tem certo valor, não dá pra negar, mas também tem contribuído para o crescimento de um exército que não cria expectativas nunca, nem mesmo para o dia de amanhã ou para bolos recém-colocados no forno; coisa que, a meu ver, é muito pior do que correr os riscos de se deparar com uma frustração dolorosa.



É claro que devemos criar expectativas com moderação e sempre tentando manter nossos pés fincados no terreno do possível, porém, em minha opinião, não há nada mais sem tempero, pimenta e cabimento do que aquelas pessoas (ou máquinas?) que respondem “Não sei, não quero criar expectativas!” para toda e qualquer pergunta. “E aí, o que fará nas suas férias?”, você questiona. E elas – as SE (sem-expectativas) -, com um ar robótico e irritantemente racional, apenas respondem: “Não sei, não quero criar expectativas!”. “Acha que o cheesecake daqui é bom?” “Não sei, não quero criar expectativas!” “Já pensou em viver apenas de escrita?” “Não, não pensei. Não quero criar expectativas!” “Acha mesmo que responder ‘Não sei, não quero criar expectativas!’ pra tudo vai lhe ajudar em alguma coisa?” “Não sei, não quero criar expectativas!”

Eu sei que pode dar merda e que corro sérios riscos de presenciar minha coleção de expectativas se transformando em pranto, cartas que não terei coragem de reler e em saudade do que não foi e que, provavelmente, nunca será, contudo, eu não perco a oportunidade de criar uma boa expectativa, daquelas que, em momentos de stress absoluto e vontade de desistir de tudo, ajudam-me a continuar só mais um pouquinho, só mais um passo, só mais um dia, só mais um sonho lúcido que, por segundos, consegue colocar o resto do mundo off

O que não dizem por aí é que a expectativa, além de mãe de frustrações, também é um eficiente antídoto contra a monotonia de um dia cujo clímax, na melhor das hipóteses, é encontrar uma nota de dois reais no bolso da calça jeans. A expectativa não é apenas matéria-prima de frustrações, como afirmam os cautelosos de plantão, pois é, também, um mágico artifício que pode ser usado quando o presente cinza, para gargalhar abestalhado, só anseia por um retrato multicolorido do futuro, uma imagem do que ainda não podemos pegar, mas que já conseguimos sentir; pensamentos que contêm mojitos e amigos reunidos em uma estação mais caliente e alegre do que aquele em que estamos algemados.

E se engana, redondamente, quem acha que curto criar as minhas expectativas sozinho, pois sempre dou um jeitinho de colocar alguém na parada, pra dividi-las comigo e roer as unhas também. Afinal, dividir uma expectativa é quase tão gostoso quando rachar um pedaço de torta de limão. À minha namorada, por exemplo, um pouco antes do sono nos desligar, costumo dizer: “Um dia vamos passear de balão, meu bem!” Ou: “Nosso cachorro, o Zé Aldo, dormirá em nossa cama, bem aqui, entre nós!”. E se não der certo? Vai doer mais do que pedra no rim, ô se vai! Porém, até lá, carregaremos um poderoso anestésico, gasolina para enfrentar, de cabeça arguida, o terreno minado e cheio de buracos que nos separa dos nossos sonhos.


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Texto escrito com exclusividade para o site O Segredo. É proibida a divulgação deste material em páginas comerciais, seja em forma de texto, vídeo ou imagem, mesmo com os devidos créditos.




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