Amor-PróprioColunistas

Vende-se amor-próprio:

Ela só saía de casa em dias de céu azul, com muito sol ou na lua cheia. Era uma mulher de poucas palavras, mas de muita atitude. Dizia que o valor das palavras estava nas ações.



Acordava, impreterivelmente, às 8h da manhã, nem um minuto a mais, nem a menos.

Antes mesmo de se levantar, pegou o espelho que estava sobre seu criado-mudo e olhou sua face que tanto venerava e esmiuçava cada parte da beleza que lhe fora dada.

Tinha a sensação que a cada dia que passava sua beleza aumentava. Depois de se admirar, levantou-se da cama, tomou uma ducha morna, para não agredir a pele.


Saiu do banho e se pôs de corpo inteiro de frente ao espelho.

Passou a toalha suavemente sobre a pele sentindo o prazer de enxugar as gotículas que compartilhavam de sua beleza.

Colocou um vestido nude, com decote V nas costas, calçou o Louboutin preto e borrifou sua fragrância preferida de lírios sobre os seus cabelos compridos.

Antes de sair de casa, deu mais uma olhada no visual e fechou a porta.


Seu caminhar pela Madison Avenue, conseguia o olhar de todos, até mesmo de outras mulheres. Com um sorriso cativante no rosto, ela desfilava com charme, elegância e muita sensualidade.

Atravessou a avenida, quando percebeu uma nova boutique. Faltavam alguns minutos para as 9h, o que dava para entrar na loja e depois ir ao trabalho sem chegar atrasada.

Olhou por fora da loja, procurando pelo nome, mas não achou. Empurrou a porta de blindex preto e adentrou.

Com decoração minimalista e nas cores de tons pastéis, a boutique era diferente de todas que conhecera.


Achou estranho, pois além dos sofás em couro, não havia nenhum produto que poderia estar à venda. Pelo menos, não que enxergasse.

– Aqui vendemos amor próprio! – Disse uma voz masculina atrás

– Não entendi!

– Não entendeu porque não precisa do que comercializamos.


– E como pode ter certeza?

– Os que se amam possuem um jeito singular.

– E se eu estiver à procura de mais amor?

O homem de smoking preto pediu para que ela o seguisse. Andaram por um corredor e chegaram numa sala. As luzes foram acesas descortinando dezenas de espelhos que ali estavam.


– Seja bem-vinda ao salão dos espelhos!

Ela não sabia em qual direção olhar. Todas resultavam em sua beleza. Acompanhava seus reflexos nos imensos espelhos. As batidas de seu coração tornaram-se mais rápidas.

– Está tudo bem? – Indagou o homem

Sem dizer uma palavra ela começou a quebrar todos os espelhos, até que ficasse apenas um.


E virando-se para ele, ela disse:

– Como posso ter amor-próprio se tenho ciúmes de meus reflexos?

 


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