Isolados do Massaco: imagens inéditas revelam uma etnia amazônica nunca antes documentada
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Isolados do Massaco: imagens inéditas revelam uma etnia amazônica nunca antes documentada

Novas imagens trazem à tona detalhes sobre os Massaco, um povo indígena isolado da Amazônia

Avatar De Ana CarolineAna CarolineViagem e Turismo23/12/2024 às 15:46 23/12/2024 às 16:19

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada
Foto: Divulgação / Funai

A política de não contato implementada no Brasil tem permitido que comunidades indígenas isoladas prosperem em seus territórios, apesar dos desafios contínuos de preservação e vigilância.

Especialistas observam que o número de grupos isolados está aumentando, especialmente em áreas protegidas, mas alertam para os riscos de contatos “catastróficos” que podem surgir com esse crescimento.

Um exemplo notável é o povo Massaco, localizado em Rondônia, um dos estados com maior índice de desmatamento na Amazônia Legal. Essa comunidade isolada tem demonstrado resiliência ao proteger suas terras com armadilhas de estacas (ou estrepes) feitas de madeira extremamente resistente, capazes de perfurar até pneus de tratores.

Em uma dessas ocasiões, uma equipe da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) teve sua picape 4×4 imobilizada por uma dessas armadilhas, encerrando uma missão no território indígena Massaco.

O território Massaco: proteção e isolamento

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Os Massaco, cujo nome vem do rio que atravessa seu território próximo à fronteira com a Bolívia, são uma das 29 comunidades isoladas confirmadas no Brasil. Além disso, outras 85 comunidades foram reportadas, mas ainda aguardam confirmação devido às exigências rigorosas de coleta de evidências e a barreiras burocráticas.

As armadilhas encontradas perto da base da Funai, supervisionada pelo experiente Altair Algayer, mostram que o grupo está determinado a manter invasores longe de suas terras. Essas estacas carregam uma mensagem clara: “Fiquem longe, não queremos intrusos”.

Um passado de exploração e um presente de crescimento

Nas décadas de 1970 e 1980, a terra dos Massaco foi invadida por madeireiros e seringueiros, colocando em risco sua sobrevivência. Na época, a política da Funai incentivava o contato pacífico com grupos indígenas, especialmente aqueles em regiões impactadas por estradas, extração de recursos ou novos assentamentos. Para atrair os Massaco, agentes deixavam ferramentas, espelhos e outros itens ao longo de trilhas.

Porém, os efeitos devastadores do contato, como a disseminação de doenças e a perda cultural, levaram a Funai a adotar a política de não contato em 1987.

O território Massaco tornou-se o primeiro no Brasil a ser oficialmente protegido apenas para comunidades isoladas, marcando o início de uma abordagem inovadora para monitorar sem interferir.

O trabalho de Altair Algayer e o impacto da política

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Altair Algayer, conhecido como Alemão, começou a trabalhar no território Massaco em 1992 e se tornou uma figura icônica na Funai. Seu trabalho sistemático na proteção e documentação do território ajudou a estabelecer o Massaco como modelo de preservação. Sob sua supervisão, o desmatamento foi eliminado dentro dos 421 mil hectares do território, um feito impressionante em uma região amplamente desmatada.

Algayer estimava que, nos anos 1990, a população dos Massaco girava em torno de 100 a 120 indivíduos. Hoje, ele calcula que o número tenha crescido para cerca de 200 a 250 pessoas, distribuídas em 50 famílias.

Em nossas expedições mais recentes e nas imagens de satélite, vimos mais novos tapiris [cabanas de palha]. Não me surpreenderia se houvesse 300 indivíduos afirma Algayer

Monitoramento e modos de vida

Ao longo dos anos, a equipe de Algayer mapeou 174 tapiris, fotografou artefatos e documentou trilhas utilizadas pelos Massaco.

Eles descobriram que o grupo queima áreas de savana amazônica no início da estação chuvosa para criar áreas de renovação natural, onde se estabelecem por vários meses.

Localizando os focos de calor registrados nas imagens de satélite em julho e agosto, sabemos com antecedência onde eles irão se estabelecer para passar a próxima estação chuvosa, de dezembro a abril explica Algayer

Os mistérios por trás dos arcos gigantes dos Massaco

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Os arcos e flechas encontrados nos acampamentos abandonados pelos Massaco intrigam pesquisadores por seu tamanho extraordinário, ultrapassando três metros – entre os maiores já documentados na Amazônia.

Como eles disparam as flechas, não fazemos ideia. Outros indígenas também tentam entender, riem e dizem que é impossível. Talvez deitados, dizem eles, mas até hoje, não temos resposta para esse mistério relata Altair Algayer

Características únicas do povo Massaco

A antropóloga Amanda Villa, integrante do Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (OPI), que acompanhou Algayer em diversas expedições, destaca que o povo Massaco se diferencia de outras comunidades vizinhas por diversas características marcantes.

Além dos arcos longos, os Massaco constroem tapiris altos, utilizam extensivamente estacas (estrepes) para proteger suas terras e posicionam crânios de animais em estacas penduradas em troncos de árvores.

Outras distinções incluem cabelos compridos, bigodes e a ausência de adornos como brincos ou colares. Em uma ocasião, um indígena Tupari, que conhece várias línguas da região, ouviu um casal Massaco conversando, mas relatou não compreender nenhuma palavra do diálogo.

É por isso que muitos especialistas da Funai suspeitam que eles vieram do outro lado do rio Guaporé, da Bolívia afirma Amanda Villa

A antropóloga sugere uma possível conexão com o povo Sirionó, conhecido por usar arcos similares, construir tapiris altos e adotar práticas de higiene semelhantes às observadas entre os Massaco.

O povo Sirionó, em particular, usava arcos similares, construções de tapiris e práticas de higiene parecidas. Mas essas são suposições. Não podemos afirmar nada com certeza conclui Amanda

Ferramentas deixadas pela Funai para evitar contato

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Imagens recentes feitas pela Funai mostram um local onde a fundação deixou ferramentas metálicas, como facões e machados, estrategicamente posicionadas.

Esses itens, que no passado eram usados para atrair contato com povos isolados, agora servem para evitar que eles procurem fazendas ou áreas de exploração madeireira em busca de ferramentas.

Essa estratégia reflete o esforço contínuo para manter a política de não contato e garantir que os Massaco permaneçam protegidos de possíveis interações que poderiam colocar em risco sua saúde e cultura.

Os desafios do crescimento populacional

Embora o crescimento da população Massaco seja um sinal positivo, ele também acarreta riscos. Especialistas alertam que o aumento do número de indivíduos pode resultar na necessidade de áreas territoriais maiores, enquanto as mudanças climáticas podem intensificar os desafios relacionados à preservação de recursos hídricos.

Se os povos isolados ficarem sem água em seus riachos, eles podem ser forçados a se aproximar de outras populações, aumentando o risco de contato destaca Algayer

O líder e sua postura de comando

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Ao analisar as imagens captadas, Algayer identificou o que aparenta ser o líder do grupo, caracterizado por sua postura imponente e o papel que desempenha na organização do grupo.

O mais velho, segurando o bastão, carrega os estrepes sob o braço. O bastão que ele segura serve como cajado, mas é usado principalmente para perfurar o solo e colocar as estacas. Ele tem essa postura de liderança, ajuda a posicionar os estrepes e diz onde colocá-los explica Algayer

Essa figura de liderança simboliza a organização e a resiliência do povo Massaco, que continua resistindo às adversidades enquanto preserva sua cultura e território.

Altair Algayer revela os bastidores das imagens inéditas:

As imagens recentes revelaram a presença de três homens Massaco, com idades entre 30 e 40 anos, descritos como vigorosos, fortes e bem nutridos. Segundo Altair Algayer, veterano da Funai, outros indivíduos do grupo aparentavam ser mais jovens.

Eles são vigorosos, fortes. Não estão passando fome afirma Algayer

Antes dessas imagens, o único contato visual com os Massaco havia sido registrado em 2014, quando Paulo Pereira da Silva, um membro da equipe de Algayer, viveu um momento inesquecível.

Um raro encontro visual

Paulo Pereira, então com 64 anos, estava preparando café por volta das 14h, quando ouviu batidas fora do escritório.

Entrei no escritório e olhei pela janela, que tem uma tela de proteção, e vi duas pessoas ao pé da escada. Fiquei paralisado lembra

Os dois homens estavam nus e sem flechas, colocando os famosos estrepes nas escadas.

Um homem mais velho fazia buracos com uma estaca de madeira de aroeira, e um jovem colocava as estacas conta Pereira

Quando ele gritou, o mais velho o encarou com firmeza, enquanto o mais jovem fugiu, deixando as estacas para trás. Em seguida, outros seis indivíduos apareceram e plantaram uma trilha de estacas que se estendeu por cerca de dois quilômetros.

Crescimento populacional entre os isolados

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Assim como os Massaco, outros povos isolados da Amazônia estão apresentando crescimento populacional em áreas protegidas. Durante uma expedição ao território Kawahiva do Rio Pardo, no Mato Grosso, especialistas da Funai encontraram evidências de que a população da região dobrou nos últimos 25 anos.

Um estudo publicado na revista científica *Nature* em 2023 revelou que os povos isolados no estado do Acre aumentaram suas plantações em 17% ao ano entre 2015 e 2022. O mesmo estudo analisou o crescimento dos Moxihatëtëa, um subgrupo Yanomami, que ampliou suas aldeias ao longo da última década.

Nos anos 2010, sua aldeia cresceu de 16 para 17 painéis de palha em círculo. Já em 2020, eles se mudaram novamente, erguendo dois anéis com um total de 23 painéis.

Vale do Javari: um modelo de recuperação

O Vale do Javari, localizado na fronteira com o Peru, é outro exemplo de sucesso. Desde sua demarcação como terra indígena em 2001, os 8,5 milhões de hectares de floresta passaram a abrigar 16 povos isolados, sendo dez confirmados.

Beto Marubo, representante da Unijava, relembra a situação antes da demarcação:

Suas malocas eram minúsculas, havia madeireiros por toda parte, traficantes de drogas, todo tipo de gente perigosa. O Javari era uma terra sem lei afirma

Após a demarcação, o cenário mudou drasticamente.

Após a demarcação e aplicação mais rigorosa das leis, as comunidades indígenas começaram a plantar hortas, diz ele. Elas não pegavam mais malária. Hoje, você vê uma nova tendência no Javari. Há lugares onde não imaginávamos que povos isolados poderiam ir, e agora eles estão aparecendo conclui Beto

Desafios do futuro

Isolados Do Massaco: Imagens Inéditas Revelam Uma Etnia Amazônica Nunca Antes Documentada

Direitos autorais: Divulgação / Funai

Embora o crescimento populacional seja uma notícia positiva, ele traz novos desafios. Especialistas alertam que as terras protegidas podem não ser suficientes para atender à expansão das comunidades isoladas, agravada por mudanças climáticas que afetam recursos hídricos.

O crescimento dos povos isolados é, sem dúvida, uma notícia maravilhosa, mas, por outro lado, nos alerta para o risco iminente de contato, não apenas porque isso pode levar a uma necessidade de mais terras, mas também por causa das mudanças climáticas pondera Algayer

Se as fontes de água secarem, as comunidades podem ser forçadas a buscar áreas habitadas, aumentando o risco de contato indesejado.

Se os povos isolados ficarem sem água em seus riachos, eles se aproximarão de outras populações afirma

Janete Carvalho, diretora de proteção territorial da Funai, compartilha a preocupação:

Vamos enfrentar isso em algum momento. Ninguém sabe onde isso vai levar, porque, em princípio, há uma chance real de que o contato aconteça diz ela

Apesar das incertezas, especialistas reforçam a importância de continuar protegendo essas comunidades, garantindo que possam preservar sua cultura e modo de vida.

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