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Vivemos em nossos próprios pedaços egoísticos.

Recordo-me como hoje do meu primeiro ano do curso de Enfermagem. Era o ano mais temido da grade curricular. As disciplinas eram muitas, cheias de detalhes pequenos e essenciais. Era preciso compreender as funções das várias fragmentações invisíveis a olho nu e as visíveis de um ser humano sadio ou doente. Até os seres mais minúsculos e causadores de patologias eram também fragmentados para o aprendizado.



A alternância diária entre estudo teórico e prático era grande e cansativa. Era um entra e sai de sala…de disciplina…de Histologia para Genética, de Genética para Fisiologia, de Fisiologia para Anatomia…Ufa! Fora os estudos das outras matérias relativas ao próprio cuidar de Enfermagem.

Sem dúvidas, primeiro ano de curso é “puxado”! Porém, nada nos dava tanto prazer e temor ao mesmo tempo do que as aulas práticas de anatomia. Prazer porque era a concretização do que víamos em sala de aula. Estudar tais pedaços anatômicos significava conhecer a nossa própria matéria física. No entanto, temíamos a exigência exagerada dos professores médicos. Eram homens sérios e acostumados com aquelas peças com cheiro de carne crua mergulhadas no formol. Por sinal, um odor bem característico e enjoado.

De acordo com o tipo de aula , peças anatômicas eram expostas nas mesas de inox e distribuídas para os alunos. No início, nada me assustou, pois estava sedenta pelo conhecimento. Via apenas fragmentos anatômicos…nada mais!


Entretanto, um dia fui surpreendida. Eu e um grupo de amigas chegamos cedo no laboratório de anatomia. O auxiliar de Patologia já havia colocado algumas peças em exposição para estudo. Observando o movimento dele, percebi que estava recolocando mais peças em uma outra e única mesa.

Distanciei-me do grupo e fiquei defronte à tal mesa. Como um jogo de peças, aquele homem estava recompondo um outro homem. Fiquei minutos olhando aquilo…estava paralisada…chocada! Meu olhar acompanhava de forma ansiosa, temerosa cada peça sendo encaixada até o arremate final, quando o mesmo trouxe a cabeça…a face daquele ser.

Até hoje não sei dizer como me senti…talvez um nada ou mesmo uma idiota a qual pensava que aprendia através de peças anatômicas…mas era através de pedaços de gente. Via tantos fragmentos de tudo todos os dias que até eu havia me fragmentado.

Fiquei ali olhando, em pé e sozinha, aquele ser reconstituído por um bom tempo. Parecia até que eu estava velando o mesmo. Para dizer a verdade, até vontade de chorar eu tive. Mas segurei tamanha emoção. Afinal, minhas amigas não conseguiam ver o que eu estava vendo. Elas só viam peças como eu vi um dia. Foram também fragmentadas!


A aula prática começou e aquele ser completo em pedaços não saia da minha cabeça. Tentei concentrar-me. Estávamos estudando sistema reprodutor feminino. Nas mesas estavam presentes vários úteros…vários pedaços semelhantes de pessoas diferentes…não mais peças anatômicas.

Enquanto analisava um único útero…um único pedaço de gente, fui surpreendida novamente com um outro ser vivo…um ser vivo completo e escondido dentro daquele fragmento feminino. Era um embrião de apenas três centímetros de comprimento. Fiquei maravilhada com a descoberta. Olhei cada detalhe daquele ser pequeno e pálido em minha mão espalmada. Já possuía cabeça com olhos, nariz e boca, tronco e membros com dedos…já era uma vida e já era morto!

Nossa… que dia! Um dia de muitos aprendizados… não apenas sobre úteros, mas principalmente sobre vidas… sobre a vida!

Aquele ser fragmentado e o ser completo mexeram com meus pensamentos… com meu coração… com minha alma. Fez-me refletir que eu era tão fragmentada quanto aquele ser em pedaços… era tão pequena e morta quanto aquele embrião já sem vida.


Vivemos de forma diminuta… de pedaços… vivemos em nossos próprios pedaços egoísticos. O todo tornou-se uma equação de fragmentos sem resolução.

Desde pequenos aprendemos a compartimentalizar tudo em nossas vidas. Crescemos assim! É mais fácil controlar os pedaços!

Nas escolas, vemos disciplinas isoladas, não há transdisciplinaridade… não percebemos o quanto umas dependem das outras.

Líderes religiosos dividem opiniões e crenças num mundo de um só Deus. Até nós nos fragmentamos diariamente em muitos seres. No trabalho somos um cargo, um título… um crachá, em casa somos um integrante da família, no lazer somos um extravasar de emoções. E no final, esquecemos que somos um único ser… o mesmo ser em momentos diferentes da vida! Retalhamos as pessoas em pedaços somente bons ou maus. Não conseguimos enxergar o ser inteiro e humano com suas luzes e sombras.


Vivemos presos e acomodados ao nosso pedacinho ensimesmado de vida, sem nos importar em dar o pouco de nós… sermos solidários a vários outros pedaços de vida.

Enfim… não conseguimos ver que todos nós somos um conjunto de peças que integram um só universo. Estamos todos conectados a ele! Não conseguimos viver isolados… viver nosso próprio pedaço de vida sem nos autoconhecermos através dos outros.

Aquele ser em pedaços e aquele ser tão pequeno e inteiro trouxeram-me uma lição completa, grandiosa e viva. Ensinaram-me que não devemos viver desencaixados ao jogo único da vida.

Pois, estarmos fora deste encaixe… é ser uma peça sem função… sem sentido para alma do mundo. É vivermos de forma isolada e morna… morta!


Izabella Procópio

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Direitos autorais  da imagem de capa: javiindy / 123RF Imagens


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