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Você, definitivamente, não é obrigado a aceitar qualquer coisa

Reconheça-se digno de ter ao lado alguém que o respeite, que o ame, que o trate como prioridade e não como uma distração à qual se recorre quando sobra um espaço na agenda.

Ok, eu confesso: sou desses românticos incorrigíveis, o que, se por um lado me traz a inspiração necessária à criação de poesias e demais escritos apaixonados – e, por conseguinte, a sobrevivência à tórridas paixões –, por outro, me coloca em situações um tanto complicadas que, com dose um pouco mais elevada de racionalidade, seriam facilmente amenizadas ou mesmo evitadas. E, como bom romântico que sou, cultivo o hábito de escrever longos e-mails ou cartas de amor, por mais obsoleto que possa parecer o gênero.



E eis que, recentemente, revisitando uma extensa mensagem enviada ao objeto de minha mais inebriante paixão, detive-me a meditar sobre um trecho que, dadas as tantas enrascadas amorosas nas quais já me meti, destacou-se em meio àquela infinidade de declarações apaixonadas.

Ao pedir uma chance ao ser amado na mensagem por mim redigida, eu me negava a especificar a chance por mim desejada com a desculpa de que os rótulos sempre limitam o potencial das relações.

Notoriamente receoso diante da possibilidade de que, ao definir as minhas expectativas, eu afastasse ainda mais aquela pessoa, eu, descaradamente, abria mão da objetividade, afirmando, poeticamente, estar disposto a acolher, devotada e ansiosamente, aquilo que o outro estivesse disposto a dar.


Coisa parecida se deu em outro momento, quando, envolvido com uma outra pessoa que, por ter lá as suas dificuldades no que tange às questões afetivas, não se mostrava disposto a se dedicar à nossa relação, eu me via dando à mesma uma contribuição inversamente proporcional a dela.

E, assim, eu me via fazendo planos e colocando expectativas em alguém que nem de longe tinha o mesmo interesse e disponibilidade afetiva que eu.

Afinal, havia tanto tempo que eu estava solteiro! Por que, então, abrir mão do pouco que o outro me dava, mesmo que contrariando tudo o que eu sempre desejara para uma relação.

E, baseado nesse raciocínio torto e ignorando a sabedoria popular – “Antes só que mal acompanhado” –, vi-me triste e solitário dentro de um relacionamento, lutando, a todo custo, pela manutenção do mesmo.


Percebe o padrão comportamental típico de uma condição de baixa autoestima? Ora, é claro que há muita sabedoria em não alicerçar nossos romances em padrões socialmente estabelecidos, dada a complexidade dos relacionamentos, do convívio diário, do confronto com as diferenças etc.

Ainda mais sábio é não cobrar do outro as responsabilidades que ele nunca se dispôs a assumir, até porque as pessoas não estão aí para atenderem às nossas expectativas, e tampouco nós às delas.

Negar-se a restringir os nossos relacionamentos às expectativas, projeções e convenções nem de longe equivale a aceitar tudo o que vier.

Seletividade na escolha dos parceiros não expressa arrogância, não! Até para ser seletivo, porém, é preciso prezar pela inteligência. Não tem nada a ver com aparência física, status ou situação socioeconômica. Tampouco se trata de optar por alguém que vá nos dar o que queremos do jeitinho que queremos, pois, definitivamente – e peço desculpas pelo choque de realidade de agora –, NINGUÉM haverá de atender a esse quesito.

Mais simples, porém mais profunda, a ideia de seletividade tem muito mais a ver com buscar alguém que tenha sobre o amor e os relacionamentos uma concepção semelhante à nossa; alguém que, mesmo que diferente – e, graças a Deus, as pessoas são sempre diferentes umas das outras –, tenha o olhar voltado para o mesmo horizonte que o nosso. Trata-se, sobretudo, de buscar alguém que tenha a nossa mesma tonalidade afetiva – expressão que, em psicologia, define o nível de disponibilidade que o indivíduo tem para dar e receber afeto.

Autoestima baixa, carência afetiva e resistência à própria companhia são portas abertas para o abuso. Tanto que não são raros relatos de pessoas que, mesmo quando agredidas psicológica, verbal e fisicamente, insistem na permanência naquela relação abusiva.

É o que acontece quando damos demasiado poder ao outro, que, superestimado, assume o controle sobre nossas emoções, turvando-nos a visão, confundindo-nos o raciocínio ao ponto de, às vezes, acreditarmos sermos nós os culpados por a relação não prosperar.

É mister que atentemos para o fato de que, ao aceitarmos do outro aquilo que em verdade nos fere, estamos a nos colocar em uma condição de menos valia; estamos a comunicar ao outro que, enquanto sujeitos de pouco valor, aceitamos o que vier, necessitamos dele, a despeito do que nos faça. E é a partir daí que se constrói uma relação abusiva que, em algum nível, teve a nossa anuência.

Naturalmente, de maneira alguma estou a inocentar o abusador. Não há que se confundir aqui: o abusador vai continuar a ser o algoz e o abusado, a vítima. A autorresponsabilidade, porém, é recurso que nos torna menos condescendentes com certas coisas à medida que nos fortalece.

Um sujeito autorresponsável está menos suscetível ao abuso, pois a introspecção lhe possibilita a compreensão das próprias motivações, emoções e sentimentos.

Nos dois casos relatados na introdução deste artigo, eu só não me vi preso a uma relação tóxica por haver tido a sorte de destinar a minha paixão a sujeitos relativamente dignos. As ideias equivocadas, porém, bem como a ausência da clareza e maturidade de agora, poderiam, sim, me haver lançado nas garras de um abusador, alvo fácil que eu era. O outro pode sempre representar um perigo, mas nós, comumente, somos o perigo maior para nós mesmos.

Portanto, se você tem bem definido o que você quer para um relacionamento, não aceite armadilhas disfarçadas de gente, não!

Se você persiste no que quer e se o outro não o pode dar, pule fora. Seja criterioso na escolha de suas parcerias afetivas.

Reconheça-se digno de ter ao lado alguém que o respeite, que o ame, que o trate como prioridade e não como uma distração à qual se recorre quando sobra um espaço na agenda.

Acorde e pare de superestimar gente que não lhe dá retorno, que não considera o que você sente, que não te quer como você quer ser querido, quem lhe reserva algum carinho com ares de quem presta um favor.

E, finalmente, se ser amado, mas ser amado de verdade, é o que você quer, vá por mim e não aceite menos que isso.


Direitos autorais da imagem de capa licenciada para o site O Segredo: starsstudio / 123RF Imagens

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