Você não pode mudar o seu passado, mas pode ressignificá-lo



A história de cada um é pavimentada pelas experiências que constroem nosso passado, para o bem ou para o mal, é assim e de alguma forma chegamos até aqui.

É claro que tudo seria mais fácil se a gente tivesse um “Ctrl+Z” ou “Del” para desfazer e apagar algumas memórias, lembranças de momentos que genuinamente gostaríamos de não ter vivido.

Gastamos tanta energia para tentar esquecer ou simplesmente fazer tudo isso desaparecer que o resultado é sentido no corpo, enxaqueca, constipação, dores de garganta. Todo esse esforço é tão eficaz quanto obedecer ao comando “não pense em um fusca azul”.

É irônico tudo isso, pois nós somos o resultado de tudo o que vivemos e fizemos e também de tudo aquilo que fizeram com a gente. A história de cada um é pavimentada pelas experiências que constroem nosso passado, para o bem ou para o mal, é assim e de alguma forma chegamos até aqui.

Fato é que algumas memórias são tão dolorosas, tão traumáticas que realmente mudar o passado resolveria tudO; E justamente por isso, torna uma batalha justa pela qual vale a pena lutar, ainda que, no fundo, saibamos que ele continuará lá, apontando o dedo na nossa cara.

Mas saiba que é possível revidar. É possível contornar o passado. Não precisa de nenhuma lobotomia, você jamais irá esquecê-lo, mas poderá ressignificá-lo, e não estou falando somente na semântica dessa expressão.

Sim, ressignificar é dar um novo significado para algo. Funciona, por exemplo, para você mudar sua perspectiva sobre jiló. Talvez provar novas receitas com jiló. Ir em um restaurante chique, com uma companhia especial, pedir o melhor vinho, sentar-se à luz de vela e degustar jiló com camarões trufados. Essa seria uma boa forma de ressignificar sua experiência com jiló. Quem sabe a partir dessa nova experiência poderia construir uma nova opinião sobre jiló. Talvez nem todos os jilós sejam iguais. Talvez exista um jeito de comer jiló sem fazer cara feia.

Mas, na raiz da expressão, ressignificar habita um sentido muito utilizado na psicologia que é “retirar o afeto”. Esse é o segredo para ressignificar o passado, ou melhor, ressignificar pessoas do passado, memórias, experiências, relacionamentos. Retirar o afeto que te afeta quando você simplesmente lembra, ou então, sente aquele cheiro, olha aquela foto, ou ouve aquela música.



Retirar o afeto é a única maneira de lidar com o passado doloroso de maneira positiva. Pelo menos até que inventem um “Ctrl+Z” ou “Del” para os humanos.

Pense nisso, o que não nos afeta nos anestesia. Leia novamente esta frase, agora com mais atenção. Tudo o que nos afeta nos faz sentir, nesse caso, faz doer.

Mas quando você ressignifica, ou seja, retira o afeto, então você fica anestesiado. De alguma maneira protegido.

Você não precisa voltar ao passado para ressignificá-lo. Mas, talvez, permitir a si mesmo novas perspectivas sobre a experiência. A verdade é que o jiló – lembra dele? – não deixou de ser amargo. Ser amargo faz parte da natureza dele é a característica principal que o faz ser reconhecido. Mas ele pode não mais incomodar o seu paladar. Ele pode até ser incluído na sua alimentação diária, porque aquele sabor que incomodava já não incomoda mais. Então, ele será mais um vegetal, como tantos outros na feira. A bem da verdade, você poderá nunca mais comer jiló. E não vai morrer por isso.

Porque talvez esqueça de comprar jiló, pois estará muito ocupado(a) com as batatas e cenouras. Quando isso acontecer, saberá que terá ressignificado.



Direitos autorais da imagem de capa: wall.alphacoders / 606675 / Whitney Justesen






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