Você não tem culpa por amar demais. Não é pecado algum ter tanto amor dentro de si!

Nem todos estão prontos para encarar frente a frente um amor puro, verdadeiro e transbordante.

Se você é um potencial amante excessivo, com certeza já escreveu cartas, digitou textos, cantou músicas, enviou corações, disse bom dia sorrindo, afirmou ter sonhado com o outro, falou dos sentimentos da maneira mais aberta que pôde, entregou-se às carícias como se não houvesse amanhã, e… infelizmente, algum tempo depois, viu-se só, sentado num canto, ouvindo música e pensando “onde foi que eu errei?”, na esperança de encontrar um ponto, um momento, um encontro, uma palavra, uma coisa qualquer que justificasse o abandono causado. E não é a primeira vez, não é mesmo? Isso sempre acontece com você. Imagine um copo tão cheio de água, mas tão cheio, que ao segurá-lo a água transborda e escorre por suas mãos, molhando-as e fazendo sua pele sentir o frescor do líquido. Assim é o coração dos que se atrevem a exceder os sentimentos, preferindo, além do todo, ser muito.

Essa coisa de em meio ao mar de amor aparecer uma ilha deserta de terra seca. Essa dificuldade em fazer alguém permanecer ao seu lado. Afinal, qual é o seu problema?

O que há de errado com você? Será sua aparência? Mau hálito? Talvez você beije mal, ou lhe falte a bendita ‘pegada’. Talvez não tenha descrito as estrelas da maneira correta, ou até mesmo, seja desafinado demais na hora de cantar. Vai que o problema sejam suas roupas? Sei lá, religião, talvez?

É, eu sei que todas essas coisas já passaram pela sua cabeça, e fizeram seu coração sangrar até não ter mais o que escorrer. Eu sei que as noites foram longas enquanto você pensava sobre qual é o seu problema, e que quando olha para trás, infelizmente, restam-lhe apenas marcas do que poderia ter sido, mas que, por incrível que pareça, nunca é, e é exatamente por isso que hoje estou aqui.

Você precisa urgentemente saber que o problema não é a camisa cor-de-rosa que estava mal passada, nem a saia de flores que não combinou com seu corpo. O problema não está em sua maneira de falar, nem em seu jeito dócil de ser. Também não é sua graduação, nem nenhum problema de saúde, e muito menos a cor dos seus olhos. O problema não é nada disso, porque na verdade o problema não está em você.

Quando à nossa frente há um enorme e transbordante copo com água temos duas opções: tomá-lo e saciar a sede, ou derrubar metade da água na pia e depois dizer “estava cheio demais”. E aqui está o problema; a maioria das pessoas – na verdade grande parte delas – vai jogar a água fora com medo de se molhar. O problema não é o excesso de água do copo; o problema é a ideia de que, caso se molhe, não haverá como secar.

A história não acontece com você sempre da mesma forma porque você é ‘ruim de amor’; a história se repete porque nem todos estão prontos para encarar frente a frente um amor puro, verdadeiro e transbordante.

Veja bem, estamos vivendo uma época onde tudo é descartável, rápido e superficial. Nossas felicitações por aniversário são um ótimo exemplo disso. Antes, íamos até a casa do outro a fim de lhe abraçar e juntos comemorar o novo ciclo. Hoje, limitamo-nos a enviar emojis de bolo e coração que serão vistos através de uma tela. Percebe a frieza?

É por isso que os que amam de maneira intensa e optam por lançar-se ao sentimento, sempre trazem à vida do outro o medo do que está por vir. Os amantes excessivos são entregues à prática dos abraços, conversas longas, cafés olhando a lua, ‘eu te amo’, olho no olho, mão na mão, pele na pele. E não sentem medo na entrega, muito menos receio de haver arrependimentos, pois, a seu ver, arrependimento mesmo deve ser perder a oportunidade de dar amor. E isso, apesar de lindo, para muitos é assustador.

Essa coisa de dar a mão sem pedir o braço em troca traz ao amado à ideia de que talvez, infelizmente, não se dará conta de ser essa Coca-Cola toda, e então, é hora de partir, antes que essa pessoa tão apaixonada perceba onde está se metendo e frustre-se ao cair na real de que suas expectativas não serão supridas.

Pena que ao saltar do barco o amado não se dá a oportunidade de saber que o amante excessivo não tem um ideal de pessoa, mas apenas amor.

Querido amante excessivo, você não está só; somos muitos. Somos uma multidão de corações transbordantes, que de tanto amor que guardam em si, apesar das muitas dores, sempre escolhem recomeçar.

Você vai encontrar quem não lhe jogue fora a água com medo do peso do copo, e que venha com sede ao ponto de beber o suficiente para também transbordar por você. Apenas continue com sua vida, sabendo que o problema não está em seu jeito leve de sorrir, e nem em seus abraços apertados.

Não é pecado algum ter tanto amor dentro de si, pelo contrário, é uma dádiva. O problema é que só compreende o valor de um copo de água quem tem sede, e não quem já está satisfeito.

Por isso, espere. Sim, eu sei que este não é o melhor conselho do mundo, mas é o único que, neste caso, faz sentido. Você precisa de alguém que, ao perceber seus excessos, não vá embora com medo de não os suprir, mas sim, esforce-se para, pouco a pouco, aprender com você como é bom ser abraçado com pureza. Você precisa de mãos que o apoiem e não que o segurem ao ponto de travar.

Você precisa de alguém que queira ser amado proporcionalmente ao amor que você pode entregar.

Espere, amigo excessivo. Espere. Quando menos imaginar alguém chegará de maneira inusitada, o suficiente para um dia, enquanto sorri, pensando em como é bom rir de tudo, fazê-lo compreender o motivo pelo qual mais ninguém permaneceu.

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Direitos autorais da imagem de capa:  Kseniya Petukhova on Unsplash



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