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Você pode achar que eu não poderia, mas digo “quer dançar”?

Pedalar é bom demais, por muitos motivos. O vento no rosto, a sensação boa de avançar quilômetro após quilômetro, rumo a algum lugar, ou a lugar algum, curtindo a estrada. Nos dias de sol é incrível. Até nos dias nublados ou de chuva fina também fica divertido. Há cenários deslumbrantes que o ciclismo permite experimentar.



Natureza, trilhas de chão ou asfalto, tudo convida a sair para a rua. Naquele quase fim de tarde de sábado, porém, a surpresa não foi por contemplar a paisagem de um novo caminho. Partimos, eu e minha irmã, na ciclofaixa da pista de asfalto, rumo ao porto. Ritmo médio de 20 quilômetros por hora, tranquilo, pelo terreno plano. Sensação agradável de liberdade, praia, ‘relax’.

Uns oito quilômetros depois da partida, nos deparamos com aquela cena incomum. Uma senhora caminhava curvada completamente para o lado esquerdo, carregando sacolas de compras. Desacelerei e parei ao lado com a pergunta óbvia: a senhora quer ajuda? Ela: “não, tudo bem, já estou acostumada”. Falei que podia ajudar novamente. Ela aceitou.

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Apoiei as sacolas de compras na bike. Estavam pesadas. A senhorinha magra não estava curvada completamente por peso algum, mas por alguma grave interferência na sua coluna. Segui ao seu lado. Minha irmã parou adiante. A mulher, com a cabeça completamente inclinada de lado tinha dificuldade de olhar para frente e para baixo. Pisava com cuidado, mas firme.

“Eu moro logo ali, dobrando aquela esquina”, comentou. Falava animada, nada pesarosa da situação, nada de lamentar alguma dor ou dificuldade. Coloquei as sacolas na bike e caminhamos até chegar em frente ao um portão pequeno. Entramos, passando ao lado de uma casa maior. Seu endereço era a casinha modesta nos fundos. Na porta, entreguei as sacolas, ela pegou, entrou, fiquei na porta, e a cena seguinte é memorável.

Aquela senhorinha com a coluna completamente inclinada para um lado, num ângulo difícil de acreditar, ainda com as sacolas nas mãos, começou a dançar, no ritmo de uma música qualquer que tocava no televisor ligado.

Se passaram alguns segundos ou minutos, mas foi uma dança linda. Dançou contornando a mesa, sem se importar com a minha presença e com a limitação da sua coluna curvada. Sua dança disse muito.


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Parafraseando o poeta Thiago de Mello – “Faz escuro mas eu canto, porque a manhã vai chegar. Vem ver comigo, companheiro, a cor do mundo mudar.” -, era como se dissesse “é difícil mas eu danço, feliz”. Saí daquela contemplação quando ela virou e disse, “entra, quer um cafezinho”? Agradeci, expliquei que ia longe ainda.

Foi bem mais do que a alegria de poder caminhar, correr ou pedalar com a coluna perfeita, que me fez sair daquela casinha flutuando. Foi reforçar a ideia de que podemos sim escolher e vibrar na melhor frequência, dançar, e curtir o momento da melhor maneira possível, seja ele qual for.


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