Reflexão

Você pode amar alguém a vida toda por causa de um traço em particular

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O escritor e psicanalista francês Jacques-Alain Miller, em entrevista a Hanna Waar e publicada na Psychologies Magazine, faz uma importante reflexão sobre o amor.

Quando você olha para seu companheiro, consegue se lembrar do que a atraiu primeiro? A personalidade, a fala, o jeito de se expressar, a maneira como trata os amigos e familiares, as possibilidades aqui são infinitas. Até hoje, nós nos esforçamos para tentar compreender, mesmo que internamente, o que é o amor, mas esquecemos de nos perguntar como é amar.

Segundo o escritor e psicanalista francês Jacques-Alain Miller, em entrevista a Hanna Waar, publicada na Psychologies Magazine, amar verdadeiramente alguém é “acreditar que ao amá-lo alcançará uma verdade sobre si mesmo”. Vemos com frequência, de acordo com ele, grande quantidade de pessoas que sabem muito bem como fazer os outros amarem, mas não necessariamente sabem o que é o amor.

De acordo com ele, para amar é necessário reconhecer que sente falta do outro, que sua ausência lhe falta. Mas, em muitos momentos, descobrimos isso apenas de maneira dolorosa demais, sentindo na pele a saudade do outro. Perguntado se é possível ser feliz sozinho, ele explica que Jacques Lacan dizia que “amar é dar o que não se tem”, e isso significa reconhecer sua falta e dá-la ao outro, colocá-la no outro.

Miller acredita que o amor deve ser sempre algo recíproco, e isso não significa que o outro é suficientemente amável, mas que existe uma relação de troca, em que o amor de um é efeito do retorno da causa do amor que o outro é. Dessa forma, o amor que você sente deixa de ser um assunto só seu e passa a fazer parte dos limites do outro.

Saber o que provoca o amor já é algo intangível, de acordo com Miller, pois muitas vezes é possível amar alguém a vida inteira por conta de um único traço especial. Ele retoma Sigmund Freud para tentar explicar sua linha de pensamento, e afirma que “liebesbedingung”, que significa a condição do amor, a causa do desejo, pode ser um traço em particular ou um conjunto de traços, que para cada um exerce uma função determinante na escolha de amar alguém.

Mas cada um possui um traço ou conjunto de traços muito específicos, e explica que Freud atendeu um paciente que sentia desejo pelo brilho de luz no nariz de uma mulher. Miller revela que os fetiches são indispensáveis para desencadear o processo amoroso, e até mesmo alguns traços que suscitam familiaridade. Nesse momento, o autor explica que existem as pessoas que anseiam ser amadas e as que são mais fetichistas, mas um não impede o outro de existir.

Miller comenta que não somos “marionetes no amor” e nada está escrito com antecedência. Nenhum encontro já foi programado, e os indivíduos vivem num mundo onde as modalidades do amor são ultrassensíveis à cultura ambiente, fazendo com que cada civilização, grupo, sociedade ou região tenha os próprios signos do amor, estruturando as relações entre os sexos.

Em relação ao amor eterno, Miller foi mais pontual. Mesmo acreditando e parafraseando Honoré de Balzac ao dizer que “toda paixão que não se acredita eterna é repugnante”, e reforça que nem sempre os laços se mantêm pela vida inteira. Como dificilmente os casamentos duram longos períodos, ele defende que a melhor forma de manifestação do amor é pela amizade, assim como já dizia Aristóteles.

Mesmo assim, o especialista francês conta que os amantes sempre estarão condenados a tentar aprender de maneira indefinida a língua do outro, tateando e buscando as chaves, que sempre são revogadas. Sendo assim, mesmo tentando explicar, o amor continua sendo um labirinto de “mal-entendidos onde não existe saída”.

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