Julio Reny, ícone do rock gaúcho, mobilizou seus fãs nas redes sociais ao colocar à venda seu único violão para pagar contas e alimentar seus gatos

Uma recente publicação de Julio Reny nas redes sociais emocionou e mobilizou admiradores do cantor, compositor e ícone do rock gaúcho.
Enfrentando sérias dificuldades financeiras, o músico — conhecido como líder das bandas KM 0, Expresso Oriente, Cowboys Espirituais e Irish Boys — anunciou que colocaria à venda seu único violão: um Strinberg modelo jumbo folk, adquirido há cerca de cinco anos por R$ 1 mil, identificado por uma flor-de-lis na extremidade.
O instrumento carrega grande valor afetivo para o artista. Foi com ele que Julio gravou os discos “Confissões de Escobar” e “Sommeliers de Canções”, ambos em parceria com Jeff Gomes.
O violão o acompanhou também em turnês pelo interior do Rio Grande do Sul e em praias de Santa Catarina durante a pandemia de covid-19, período em que realizou mais de cem apresentações.
“A história de eu ter botado o meu violão à venda é porque eu me vi acuado e encurralado pela vida. Sem dinheiro para pagar as contas e alimentar meus gatinhos, eu estava disposto a passar fome. Mas os meus animaizinhos são inocentes e não merecem”, desabafa Reny, 66 anos.
Na última sexta-feira (17), o autor de clássicos como “Amor e Morte”, “Não Chores Lola” e “Jovem Cowboy” recebeu a equipe do Zero Hora em seu apartamento térreo, localizado na Avenida João Pessoa, em frente ao Parque Farroupilha (Redenção), em Porto Alegre.
O imóvel pertence a uma de suas filhas, e Reny contribui pagando o condomínio, no valor de R$ 350. Seu empresário, Sandro Ineu, 46, divide o espaço com o músico e cobre as despesas de energia elétrica. Juntos, vivem também seus gatos, Malhado e Preta, ambos com cinco anos.
“Comecei a ter uma crise de pânico por não ter de onde tirar dinheiro. Antes de eu me deitar, fiz uma oração muito forte para Jesus Cristo e para o meu anjo da guarda. E caí no sono. No sonho, uma voz me disse assim: “Bota o teu violão à venda, custe o que custar”, conta Reny sobre os momentos que antecederam o anúncio em seu Instagram.
Assim que acordou, o artista pediu ajuda ao empresário para publicar a postagem. A resposta foi imediata: fãs começaram a enviar mensagens de apoio e a realizar doações via Pix.
Outros sugeriram a realização de um show beneficente em prol do cantor, considerado uma das figuras mais importantes da cena musical de Porto Alegre.
Sentado em sua cama com o violão no colo e uma imagem de Santo Expedito — o santo das causas urgentes — sobre a mesinha ao lado, Reny relembra com emoção o momento em que as doações começaram a chegar. Segundo ele, a força do público foi determinante para que não precisasse se desfazer do instrumento que o acompanhou em toda a sua trajetória artística.
“Eu canto, componho, toco, lanço discos e gravo clipes por e para os meus fãs. Eles são o sentido da minha carreira e vida. Componho música pensando neles.”
O músico contou que imaginava que apenas algum colecionador pudesse se interessar pela compra, mas o resultado foi completamente diferente. A repercussão nas redes gerou uma onda de solidariedade que o emocionou profundamente.
“Só posso, com toda a humildade, agradecer do fundo do coração tamanho carinho e generosidade. O que vou dizer mais do que isso?” afirma, garantindo que não está parado no tempo e segue em atividade.
Julio Reny já foi tema de diversas homenagens. Em 2015, o jornalista Cristiano Bastos lançou a biografia “Julio Reny — Histórias de Amor & Morte” (Artes & Ofícios).
Já em julho deste ano, o documentário “Amor e Morte em Julio Reny”, dirigido por Fabrício Cantanhede, foi exibido na mostra Rock Gaúcho no Cinema, na Sala Paulo Amorim.
O filme aborda as dificuldades pessoais e profissionais do músico, que enfrenta miopia severa, catarata e convive com esquizofrenia e transtorno bipolar.
Atualmente, o artista recebe uma pensão equivalente a um salário mínimo devido à deficiência visual.
Com a ajuda dos fãs, conseguiu aliviar parte das dívidas e retomar o fôlego financeiro. Até a última sexta-feira (17), aproximadamente R$ 10 mil já haviam sido doados em sua conta.
Com mais de cem composições ao longo da carreira, Julio Reny garante que está reorganizando suas finanças e pretende seguir criando e se apresentando.
“Eu e os gatinhos estamos livres da fome e o violão não será vendido.”
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