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Obcecada por pescador, mulher mata mãe e filhas envenenadas

Mulher acusada de envenenar mãe e filhas teria agido por obsessão por pescador

Avatar De Ana CarolineAna CarolineNotícias26/06/2026 às 16:25

Obcecada Por Pescador, Mulher Mata Mãe E Filhas Envenenadas
Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal - Facebook / Divulgação / Policia Civil

A morte da marisqueira Adriane Ribeiro Santos, de 23 anos, e de suas duas filhas, Gleysse Kelly Santos da Conceição, de 5, e Ruteh Santos da Conceição, de 2, está entre os casos criminais mais marcantes da história recente da Bahia.

Entre o fim de julho e a metade de agosto de 2018, mãe e filhas morreram em circunstâncias parecidas no distrito de Nagé, em Maragogipe, no Recôncavo baiano.

O cachorro da família também havia morrido poucos dias antes. O que, no começo, parecia uma sequência de tragédias sem explicação acabou se tornando uma investigação complexa, marcada por exumações, exames toxicológicos, prisões e uma acusação que aponta uma obsessão amorosa como possível motivação para os crimes. O primeiro caso ocorreu em 30 de julho de 2018.

Suspeita de envenenamento

Naquele dia, Gleysse Kelly passou mal de forma repentina e foi levada para um hospital em São Félix. A criança apresentava salivação intensa e hiperglicemia, condição caracterizada pelo excesso de açúcar no sangue. Apesar do atendimento médico, ela morreu poucas horas depois. Como os primeiros exames não indicaram sinais evidentes de violência, a morte chegou a ser considerada natural.

Uma semana mais tarde, em 6 de agosto, a família voltou a ser atingida pela tragédia. Ruteh, irmã mais nova de Gleysse, também passou mal e foi levada às pressas para a Unidade de Pronto Atendimento de Maragogipe. A menina chegou desacordada à unidade de saúde e morreu no mesmo dia. A semelhança dos sintomas passou a chamar a atenção de médicos e investigadores.

Ainda tentando enfrentar o luto pela morte das filhas, Adriane passou mal na noite de 13 de agosto, novamente uma segunda-feira. A marisqueira apresentou um quadro parecido com o das crianças, com excesso de secreção pela boca, suor intenso e mal-estar súbito.

Ela foi encaminhada para a mesma UPA, mas também não resistiu. A coincidência das três mortes em intervalos exatos de uma semana, somada aos sintomas semelhantes, transformou o caso em um mistério que rapidamente repercutiu em toda a região.

As suspeitas cresceram depois que familiares informaram que nem Adriane nem as meninas eram diabéticas, embora a polícia tenha encontrado medicamentos usados no tratamento da doença dentro da residência. Outro ponto que despertou a atenção dos investigadores foi a morte do cachorro da família, registrada poucos dias antes da primeira criança. A partir desse conjunto de elementos, a hipótese de envenenamento passou a ser tratada com seriedade pela Polícia Civil.

Exumação dos corpos das vítimas

As apurações avançaram de forma gradual. Os primeiros laudos toxicológicos feitos nos corpos de Adriane e Ruteh não identificaram substâncias capazes de explicar as mortes. Diante da ausência de respostas, o delegado responsável solicitou novos exames e pediu a exumação dos corpos.

Em setembro de 2018, após autorização da Justiça, os restos mortais de Gleysse e Ruteh foram retirados dos túmulos para análises complementares. A expectativa era descobrir o que havia provocado a sequência de mortes que deixou moradores de Nagé assustados e sem explicação.

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Enquanto os novos exames eram realizados, a polícia passou a ouvir testemunhas e a investigar pessoas próximas à família. Foi nesse contexto que surgiram os nomes de Elisângela Almeida de Oliveira e do marido dela, Valci Boaventura Soares. Moradores de Conceição da Feira, os dois haviam se aproximado de Adriane e de seu marido, Jefferson Eduardo Brandão, por meio da igreja frequentada pelo casal. Segundo relatos colhidos durante a investigação, a convivência entre eles se tornou intensa nos meses que antecederam as mortes.

Os depoimentos reunidos pela polícia indicaram que Elisângela teria participado do preparo ou da entrega de alimentos consumidos pelas vítimas antes de cada episódio fatal. Um dos relatos considerados mais relevantes apontava que Adriane teria bebido um copo de chocolate oferecido pela suspeita poucas horas antes de morrer. Outras testemunhas disseram que Elisângela costumava passar longos períodos na casa da família e demonstrava uma proximidade considerada excessiva com Jefferson.

Prisões durante a investigação

Em outubro de 2018, a Polícia Civil prendeu temporariamente Elisângela e Valci. Segundo os investigadores, havia indícios de que o casal estaria tentando influenciar testemunhas e eliminar possíveis provas.

Com o andamento das apurações, no entanto, a suspeita de participação de Valci perdeu força. Ele acabou sendo solto posteriormente por falta de elementos suficientes para sustentar uma acusação criminal.

A linha de investigação adotada pela polícia apontou uma motivação considerada perturbadora. De acordo com o inquérito, Elisângela teria desenvolvido uma relação possessiva em relação a Jefferson, marido de Adriane e pai das duas meninas. Os investigadores concluíram que a suspeita pretendia ocupar o lugar da marisqueira e construir uma relação com o pescador.

O próprio Jefferson afirmou que Elisângela chegou a custear despesas de seu casamento, insistia em tratá-lo como filho e pedia para ser chamada de mãe. Após a prisão da suspeita, ele declarou acreditar que os assassinatos teriam sido motivados pelo desejo dela de afastar sua família. As respostas mais conclusivas começaram a surgir após a finalização dos exames toxicológicos complementares.

Substância conhecida como “chumbinho”

Os laudos identificaram que Adriane, Gleysse e Ruteh morreram em decorrência de intoxicação causada por Terbufós, um inseticida agrícola extremamente tóxico presente em produtos popularmente conhecidos como “chumbinho”. Segundo a acusação, a substância teria sido misturada a alimentos consumidos pelas vítimas em momentos diferentes, provocando as mortes ao longo de três semanas consecutivas.

Com base nos laudos periciais, nos depoimentos de testemunhas e em outros elementos reunidos durante a investigação, o Ministério Público denunciou Elisângela pelos três homicídios. A acusação sustenta que ela teria agido por motivo torpe, com uso de veneno e sem permitir qualquer possibilidade de defesa às vítimas.

Anos depois, a Justiça decidiu pronunciar a acusada para ser julgada pelo Tribunal do Júri. Na decisão, o magistrado destacou que, naquela etapa do processo, não cabia ao juiz definir a culpa ou a inocência da ré, mas apenas verificar se havia indícios suficientes para levar o caso à análise dos jurados. As qualificadoras de motivo torpe, emprego de veneno e recurso que dificultou a defesa das vítimas foram mantidas.

Anos de espera pelo julgamento

Mesmo depois da pronúncia, o processo continuou enfrentando atrasos. O julgamento foi inicialmente marcado para abril de 2026, mas acabou adiado depois que a defesa comprovou que Elisângela havia passado por uma cirurgia para retirada da vesícula biliar.

Depois disso, uma nova sessão foi agendada para junho do mesmo ano, mas a defesa voltou a pedir a suspensão do júri, alegando problemas de saúde da acusada. O pedido de suspensão por tempo indeterminado foi negado, mas a Justiça concedeu um novo adiamento.

Com isso, o júri popular foi remarcado para 7 de outubro de 2026. Quase oito anos após as mortes que chocaram o Recôncavo baiano, familiares ainda aguardam o julgamento que poderá definir a responsabilidade criminal pela morte de Adriane e de suas duas filhas.

Enquanto a decisão não acontece, o caso segue presente na memória dos moradores de Maragogipe como uma das histórias mais impactantes e perturbadoras da crônica policial baiana.

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