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Mulher é desdobrável, eu sou! – por adélia prado

Com licença poética



Quando nasci um anjo esbelto,

desses que tocam trombeta, anunciou:

vai carregar bandeira.


Cargo muito pesado pra mulher,

esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,

sem precisar mentir.


Não sou tão feia que não possa casar,

acho o Rio de Janeiro uma beleza e

ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.


Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,

já a minha vontade de alegria,


sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.

Mulher é desdobrável. Eu sou.

__________________


Adélia Prado PRADO, A. Bagagem. São Paulo: Siciliano. 1993. p. 11.

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