Autor de chacina em cinema de SP deixa "vendedores com medo" ao frequentar shopping na Bahia
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Autor de chacina em cinema de SP deixa “vendedores com medo” ao frequentar shopping na Bahia

Em liberdade desde 2024, Mateus da Costa Meira passou a frequentar o Shopping Barra e gera medo entre vendedores

Avatar De Ana CarolineAna CarolineNotícias09/07/2026 às 12:01

Mateus Vem Sendo Fotografo Por Frequentadores De Shopping Em Salvador — Foto: Reprodução
Foto: Reprodução / câmeras de segurança / X

Em liberdade há dois anos, o ex-estudante de Medicina Mateus da Costa Meira, atualmente com 51 anos, passou a frequentar com regularidade o Shopping Barra, um dos centros comerciais mais tradicionais de Salvador.

Condenado inicialmente a 120 anos de prisão por entrar armado com uma submetralhadora em uma sala de cinema do Morumbi Shopping, em São Paulo, matar três pessoas e deixar outras nove feridas, ele foi solto em 2024 por decisão da Justiça da Bahia. Desde então, tem sido visto com frequência no shopping da capital baiana, circulando por cafés, livrarias e até entrando em salas de cinema semelhantes àquela onde cometeu a chacina.

A presença de Mateus no local começou a gerar apreensão entre frequentadores, que passaram a fotografá-lo e compartilhar as imagens em grupos de WhatsApp. Considerado um dos principais centros comerciais da Bahia, o Shopping Barra reúne 315 lojas e um complexo de cinema com oito salas, sendo três delas VIPs. Situado em uma das áreas mais valorizadas e turísticas de Salvador, o espaço recebe cerca de 50 mil visitantes por dia.

Mateus vive sozinho a poucos quarteirões do shopping. A comerciante Janaína Chaseliov, de 34 anos, contou que a identificação dele causou medo entre trabalhadores do local.

“Quando eu o vi pela primeira vez, fiquei em dúvida, porque ele está bem diferente. Mas logo a informação se espalhou no shopping, deixando os vendedores com medo”

A liberdade de Mateus representa o capítulo mais recente de uma longa disputa judicial iniciada em 1999, ano em que ele cometeu o crime durante uma sessão do filme “Clube da luta”.

Antes de ser levado ao Tribunal do Júri, a defesa tentou sustentar que ele era inimputável, ou seja, que um transtorno mental grave o impediria de entender a gravidade dos próprios atos e, por isso, ele não poderia responder criminalmente pelo massacre. A tese, porém, não foi aceita.

A Justiça de São Paulo instaurou um incidente de insanidade mental e nomeou uma junta formada pelos psiquiatras Sérgio Paulo Rigonatti, Antônio Carlos Justino Cabral e Moacyr Alexandro Rosa, além da psicóloga Maria Adelaide de Freitas Caires.

Depois de meses de entrevistas, testes psicológicos e avaliações psiquiátricas, os quatro foram categóricos: embora apresentasse uma série de transtornos mentais, incluindo psicopatia, Mateus era imputável e tinha plena capacidade de compreender o caráter ilícito de seus atos, além de agir conforme esse entendimento.

O principal fundamento dos peritos foi o nível de planejamento do massacre, considerado incompatível com a versão de que Mateus não sabia o que fazia. Ele comprou a submetralhadora por R$ 5 mil, conseguiu munição, consumiu cocaína, deixou o apartamento onde morava e se hospedou em um hotel para dificultar sua localização.

“Poderia ser na Câmara dos Deputados. Mas lá tem detector de metais. Por isso escolhi o shopping”

Para a junta médica, a sequência de decisões mostrava que o atirador tinha capacidade de planejar, prever consequências e controlar a própria conduta. O psiquiatra José Cássio Pitta, médico particular de Mateus na época do crime, também relatou sua percepção sobre o ex-paciente.

“Ele é perverso e tão frio que me deixava assustado”

Levado ao Tribunal do Júri em 2003, Mateus foi considerado plenamente responsável pelo massacre, condenado e enviado para cumprir pena em Tremembé.

Em 2004, para ficar mais próximo dos pais, Mateus pediu transferência de Tremembé para a Penitenciária Lemos Brito, em Salvador. Na nova unidade prisional, ainda em regime fechado, ele tentou matar o traficante Francisco Vidal Lopes, de 58 anos, com golpes de tesoura na cabeça. Por causa dessa tentativa de homicídio, Mateus seria levado novamente ao Tribunal do Júri. A nova equipe de defesa, liderada pelo advogado Vivaldo Amaral Adaes, voltou a alegar inimputabilidade, o que levou a um novo incidente de insanidade mental.

Durante esse novo processo, especialistas baianos apresentaram hipóteses como transtorno de personalidade esquizoide, transtorno psicótico, esquizofrenia e transtorno delirante. No entanto, nenhum dos documentos localizados até o momento registra uma conclusão pericial categórica de que Mateus fosse incapaz de compreender o crime ou de se autodeterminar.

A mudança de rumo ocorreu no julgamento. O Ministério Público da Bahia aderiu à tese de inimputabilidade, e acusação e defesa passaram a sustentar juntas que Mateus não poderia ser responsabilizado criminalmente da mesma forma. Os jurados aceitaram a argumentação. O juiz Moacyr Pitta Lima Filho o absolveu impropriamente e determinou sua internação por tempo indeterminado no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico da Bahia, até que uma perícia comprovasse a cessação de sua periculosidade.

A tentativa de retirar Mateus do hospital de custódia começou pouco depois. Familiares e advogados passaram a pedir a desinternação, defendendo que ele poderia seguir em tratamento fora da instituição. Diante da solicitação, a Justiça determinou novas avaliações feitas por profissionais da unidade de saúde. Os pareceres, porém, apresentaram um quadro desfavorável, apontando que Mateus não demonstrava arrependimento genuíno pelo massacre nem empatia pelas vítimas.

Em uma das entrevistas realizadas com a psiquiatra Denise Rocha Stefan, Mateus falou sobre seu arrependimento:

Eu me arrependo, mas é aquele arrependimento egoísta porque, é claro, a pessoa vai pensar primeiro em si mesma. Eu me arrependo primeiro em relação a mim, depois em relação aos meus pais, porque não pensei neles quando fiz isso. Por fim, nos familiares das vítimas. Eu me arrependo do que fiz, mas quem está sentindo isso sou eu e minha família. Quer dizer, penso primeiro em mim porque quem está preso aqui, sofrendo, sou eu

Em outro momento, Mateus afirmou que “lamenta muito” não ter esperado seis meses para cometer o massacre no shopping.

Se eu tivesse esperado, teria me formado. E com curso superior, ficaria numa cela especial e não misturado com os outros

Em 2024, Mateus foi definitivamente para casa com autorização da Justiça da Bahia. Na decisão que permitiu sua saída, ficou estabelecido judicialmente que os pais seriam responsáveis por manter o tratamento psiquiátrico do paciente, principalmente pela administração dos medicamentos que o mantêm controlado. Também ficou previsto que ele deveria morar com os genitores, o médico oftalmologista Deolindo Vanderlei Meira, de 87 anos, e a enfermeira Alina da Costa Meira, de 84.

No entanto, a coluna apurou que Mateus vive sozinho em uma quitinete em Salvador. Segundo declarações prestadas à Justiça por Deolindo e Alina, ele costumava agredir familiares, chegando a quebrar três costelas do pai durante uma luta corporal. O advogado Vivaldo Adaes comentou a situação.

“O Mateus só agride quem ele gosta. O próprio preso que levou a tesourada disse isso ao juiz. Os dois eram amigos”

Assim que Mateus foi solto, seu representante decidiu encerrar sua atuação na defesa. O advogado afirmou temer a presença do ex-cliente em seu escritório.

“Eu tenho medo de que ele apareça armado aqui no meu escritório. Aliás, todo mundo tem esse medo. Até porque ele já havia feito uma lista de pessoas marcadas para morrer”

Na lista citada, Mateus teria incluído ex-defensores, integrantes do júri que o condenou em São Paulo, jornalistas, colegas de cela, funcionários de penitenciárias e até médicos e psicólogos que assinaram laudos desfavoráveis a ele.

Recentemente, Adaes também viu Mateus andando sozinho pelo shopping. Como estava acompanhado dos filhos, o advogado decidiu voltar antes que o atirador o encontrasse. Marco Antônio Damasceno, de 50 anos, médico e ex-colega de infância de Mateus no Instituto Social da Bahia (ISBA), também relatou ter visto o ex-estudante no local.

“Também já vi o Mateus várias vezes na bilheteria do cinema. Está acima do peso e me parece bem sombrio. Me cumprimentou normalmente. Fiquei com medo porque ele carregava uma mochila”

A liberdade de Mateus contrasta com a situação de outros criminosos conhecidos que, décadas depois dos crimes, continuam recolhidos por decisões judiciais baseadas no risco que ainda representariam à sociedade. Marcelo Costa de Andrade, conhecido como Vampiro de Niterói, foi considerado inimputável e permanece há mais de 30 anos no Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Henrique Roxo, no Rio de Janeiro, por ainda ser considerado perigoso.

Francisco Costa Rocha, o Chico Picadinho, cumpriu integralmente sua pena, mas foi interditado pela Justiça de São Paulo e segue na Casa de Custódia de Taubaté por apresentar, segundo a perícia, distúrbios de personalidade e risco social iminente.

Roberto Aparecido Alves Cardoso, o Champinha, que tinha 16 anos quando participou dos assassinatos de Liana Friedenbach e Felipe Caffé, continua recluso na Unidade Experimental de Saúde, na Vila Maria, em São Paulo. A Justiça mantém sua internação compulsória por entender que seus transtornos o tornam perigoso e que sua tendência à violência exige contenção, tratamento e avaliações periódicas antes de eventual retorno ao convívio social.

A psiquiatra Hilda Morana, que avaliou Mateus durante quatro meses em São Paulo, também defende que ele não deveria estar em liberdade. Para a profissional, o ex-estudante de Medicina é altamente inteligente, plenamente imputável e possui capacidade de manipulação suficiente para enganar até avaliadores.

Morana define Mateus como um “psicopata perverso”, perigoso e sem preparo para viver em sociedade.

“Ele não pode ficar na rua porque vai fazer maldade”

A psiquiatra afirma ainda que Mateus tentou se passar por doente mental desde o massacre, mas não conseguiu convencer a Justiça paulista.

“Aí chegou em Salvador, ele queria se passar por louco e se passou. Incrível como ele enganou a Justiça baiana”

Quando Mateus cometeu o massacre no Morumbi Shopping, em 1999, a legislação brasileira limitava a 30 anos o tempo máximo de prisão. Assim, caso não tivesse cometido outro crime, ele chegaria a esse limite em 2029. No entanto, como em 2009, já preso, tentou matar um companheiro de cela, essa contagem poderia ser alterada. Se fosse condenado pelo novo crime, o limite de 30 anos poderia ser recalculado a partir da nova condenação, mantendo-o preso por mais tempo.

Embora tenha dado parecer favorável à transferência de Mateus da penitenciária para o Hospital de Custódia e Tratamento, o Ministério Público da Bahia se posicionou contra sua soltura e recorreu a instâncias superiores para tentar mantê-lo privado de liberdade.

A psiquiatra Grace Adriana Lopes Conceição, que trabalhou por três anos no Hospital de Custódia e avaliou Mateus durante quase um ano, também defende que ele não deveria conviver em sociedade. Para a médica, Mateus é psicopata, e o risco não está em uma suposta esquizofrenia que o faria perder o controle sem medicação, mas em uma personalidade antissocial marcada por falta de empatia e arrependimento, inteligência, frieza e capacidade de planejamento.

“O risco existe. Mateus pode voltar a cometer crimes, embora dificilmente repetisse um ataque nos mesmos moldes do massacre de 1999, justamente por ser inteligente demais”

Conceição também admite ter medo do ex-paciente. Durante as entrevistas, ela soube que Mateus mantinha a lista de pessoas que pretendia matar. A médica chegou a perguntar se seu nome estava incluído nela, e ele respondeu que não.

“Se o encontrasse hoje no shopping, também sairia correndo”

Ela acredita que Mateus deveria permanecer internado em um ambiente protegido e monitorado, como havia recomendado em seu laudo.

Os pais de Mateus, o Ministério Público da Bahia e o Tribunal de Justiça da Bahia foram procurados pela coluna para comentar a situação do ex-estudante de Medicina. Nenhum deles respondeu aos contatos.

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