"Assumam que estão ferrados": troca de mensagens entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques vem à tona
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“Assumam que estão ferrados”: troca de mensagens entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques vem à tona

Mensagens entre ministros expõem crise e desconfiança no STF

Avatar De Ana CarolineAna CarolinePolítica16/09/2026 às 12:11

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Foto: Divulgação / STF - Alejandro Zambrana

As divergências entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que já haviam se tornado evidentes durante as discussões públicas, também chegaram às conversas privadas. Nos últimos dias, uma troca de mensagens por WhatsApp entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques expôs o clima de tensão existente entre integrantes da Corte.

O desentendimento está relacionado ao julgamento que analisou o afastamento de Andrei Rodrigues da direção-geral da Polícia Federal. Gilmar deixou claro a Kassio que suspeitava de uma atuação previamente articulada envolvendo o ministro, André Mendonça e Luiz Fux durante a análise do caso.

Um dos pontos que despertaram a desconfiança de Gilmar foi a proximidade entre os votos apresentados por Fux e Kassio Nunes Marques. Os dois ministros registraram suas posições com poucos minutos de diferença durante o julgamento virtual.

Outro aspecto apontado foi a sequência dos acontecimentos naquela manhã. Gilmar apresentou um pedido de vista às 10h01. Poucos minutos depois, Fux registrou seu voto e, na sequência, Kassio também apresentou sua posição. Para Gilmar, a rapidez reforçaria sua suspeita de uma articulação entre os colegas, embora essa interpretação seja contestada e não constitua, por si só, comprovação de um acordo prévio.

Segundo o relato publicado pelo Metrópoles, Gilmar também suspeitava que a realização daquela sessão havia sido acertada reservadamente na sexta-feira anterior.

A acusação atribuída a Gilmar vai além. De acordo com a reportagem, o ministro suspeita que André Mendonça teria desconsiderado conversas encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro que poderiam envolver Kassio e outros integrantes do Supremo e, em contrapartida, teria posteriormente recebido apoio em decisões relacionadas ao caso. Mendonça rejeita as suspeitas levantadas contra sua atuação.

Discussão entre Gilmar e Kassio chega ao WhatsApp

Foi diante desse cenário de desconfiança que a divergência entre Gilmar Mendes e Kassio Nunes Marques saiu do julgamento no Supremo e chegou às mensagens particulares trocadas pelo WhatsApp.

Gilmar iniciou uma das cobranças pedindo que os envolvidos deixassem os processos e abrissem suas contas: “Assumam q estao ferrados e saiam dos processos. Abram as contas”

Kassio reagiu imediatamente e cobrou respeito do colega: “Me respeite Gilmar. Isso não é postura”

A discussão continuou e Gilmar elevou o tom, chegando a afirmar que Kassio deveria deixar também o Tribunal Superior Eleitoral (TSE): “Nao julguem porra. Não respeito a quem nao se daH respeito. Vc tem de sair do tse também.”

Diante da mensagem, Kassio respondeu que não pretendia continuar conversando caso não fosse tratado com respeito: “Então não me tecle pois não falo com quem não me respeita”

Gilmar, porém, voltou a insistir na cobrança e pediu que o ministro apresentasse suas contas antes de participar de novos julgamentos relacionados ao caso: “Abra as suas contas antes de julgar qualquer coisa desse caso na turma.”

Kassio respondeu dizendo que não teria dificuldade em fazer isso e ressaltou que presta contas de sua atuação há anos: “Abro com o maior prazer. Há 15 anos que presto contas de tudo. Como juiz. Tramoias ….”

Na sequência, Gilmar ampliou a cobrança e fez referência também aos familiares do ministro: “Verdade! De sua família…”

Menção à família de Nunes Marques

A referência feita por Gilmar ocorre em meio a outra reportagem do Metrópoles envolvendo Kevin Nunes Marques, filho de Kassio Nunes Marques. Segundo a publicação, mensagens relacionadas ao Banco Master mencionariam um pagamento de R$ 500 mil a Kevin. A reportagem afirma que a informação apareceu em conversas envolvendo Daniel Vorcaro e o diretor jurídico da instituição.

Nunes Marques nega que seu filho tenha trabalhado para o Banco Master e também declarou que não teve acesso ao relato mencionado. Posteriormente, o ministro declarou-se impedido de participar do julgamento destinado a analisar se o Supremo deveria investigar Alexandre de Moraes por relações atribuídas a ele com Daniel Vorcaro.

As reportagens também apontaram relações profissionais entre Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, e Daniel Vorcaro. Em uma das conversas divulgadas, o banqueiro procurou o advogado solicitando auxílio em um caso: “Quero te chamar pra me ajudar num caso”

Rodrigo teria se colocado à disposição e agendado uma videoconferência para o dia seguinte, respondendo: “Será um prazer, se eu puder ajudar”

Vorcaro, então, agradeceu pela disponibilidade: “Valeu irmão”

Relatório da PF também entra no centro da controvérsia

Outro elemento mencionado nas reportagens é um relatório de inteligência da Polícia Federal que apontaria diferenças no tempo utilizado por André Mendonça para analisar determinadas medidas solicitadas pela corporação.

De acordo com o documento descrito pela reportagem, pedidos envolvendo aliados do governo federal, entre eles Jaques Wagner, teriam recebido decisões mais rapidamente do que medidas relacionadas a políticos da oposição, como Claudio Castro, associado politicamente ao grupo de Jair Bolsonaro.

É esse conjunto de acontecimentos que sustenta a acusação atribuída a Gilmar Mendes de que Mendonça teria adotado uma condução seletiva no caso e poupado integrantes do Supremo que posteriormente apoiaram suas decisões na Segunda Turma.

As suspeitas, entretanto, são contestadas. André Mendonça e Luiz Fux negaram as acusações relacionadas a uma suposta atuação combinada ou seletiva. A proximidade temporal entre os votos, assim como os demais elementos mencionados nas reportagens, integra a controvérsia entre os ministros, mas não demonstra isoladamente a existência de um acordo prévio.

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