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Há mulheres anônimas, simples e magnificas!

Há Mulheres Anônimas Simples e Magnificas

Toda manhãzinha, quando eu ia para o trabalho, via dona Nena debruçada sobre o batedor de roupas. Quanto mais peças, mais lucro, e algumas já se encontravam balançando nos varais, como notas de tostões suados. Para ajudar no sustento dos três filhos, tornara-se uma excelente profissional na lavagem de roupas.



À tardinha, de volta do trabalho, encontrava dona Nena carregada de trouxas, levando-as como se fossem jóias preciosas. Às vezes, sua filha de doze anos ajudava na entrega; noutras, ia sozinha, arfando pelo peso, mas nunca deixou de me sorrir, ou perguntar se tudo corria bem em minha casa.

A bem da verdade, nunca vi dona Nena séria. Era pequena, olhos da cor das folhas, andar lépido, como o de um coelho apressado. Os cabelos crespos, avermelhados pelo sol, estavam sempre impecavelmente presos na nuca. Embora suas unhas estivessem franzidas e sem vida, pelos efeitos negativos do sabão, toda sua aparência era de uma simplicidade limpa.

No início da noitinha,  quando eu fazia o mesmo percurso, indo para a escola, lá vinha dona Nena com novo carregamento de roupas para serem lavadas no dia seguinte. O vai-e-vem de dona Nena coincidia com o meu. Menos nos dias de chuva, e aos domingos.


Eu a admirava. Muitas vezes, olhei com curiosidade, espichando um rabo de olho disfarçado, para a casinha pequena, erigida sobre um terreno cedido pela prefeitura. Não me espantaria, se me contassem que ela a construíra com suas próprias mãos. A oportunidade de conhecer o interior de seu casebre surgiu, quando a mãe de uma de minhas amigas ficou adoentada, e me perguntou se eu não conhecia nenhuma lavadeira de roupas.

Dona Nena, tão logo me avistou, foi me convidando para adentrar. Sem muito tempo, fui falando, apressadamente, a respeito da senhora que precisava com urgência de seus serviços. Por natureza, não sou de ir reparando, ou fazendo qualquer comentário sobre a casa das pessoas, mas, dessa vez, não pude me conter diante dos arranjos das três peças pequenas.

Na pequena sala, havia apenas três bancos e uma moldura oval de seu casamento, enfeitando a parede, à direita. À esquerda, três fotos escolares dos filhos, uma folhinha recente, e uma miniatura de mesa, onde dois menininhos robustos faziam suas tarefas escolares, e cochichavam entre si. Presentearam-me com um sorriso tímido. Retribuí.

Calei-me, encantada com o asseio e a distribuição de seus poucos bens. Todas as tábuas, tanto as do chão, como as dos bancos, da mesa, e das paredes, eram alvas de doer os olhos. Nenhuma manchinha ou risquinho, nenhum chinelo, ou brinquedo pelos cantos.Tanta limpeza fez-me sentir vergonha de não ter tirado os sapatos, ao entrar.


O fogão era a lenha, construído com barro, e equilibrado sobre quatro pernas feitas de toras. Fogão a lenha, esse utilitário doméstico da época, enegrecia as paredes, as panelas, e criavam fuligem no telhado, para desespero das donas dos lares. Menos o fogão de dona Nena.

Não me contive, e perguntei: dona Nena, a senhora passa tinta para ficar assim tudo tão limpinho? Seu sorriso alargou-se, grata pelo elogio, deixando à mostra dentes fortes e falhos, e foi me passando a receita: “Na cozinha, uso cinza.Todos os dias, junto as cinzas do fogão, e passo numa peneira. Não pode ter nenhum carvãozinho, senão estraga a cor da pintura. Misturo com um pouco de água e mexo bem. Na hora que pincelo, não fica tão bom, mas, depois de secar, fica essa cor. No restante da casa, sabão de soda, escova e muque”.

Em minha casa, nesse tempo, o fogão era econômico, esmaltado de branco, com florzinhas amarelas. Tinha forno, recipiente para água quente, e sujava menos que o fogão a lenha — fogão a gás era um luxo que poucos podiam ter, e outros até podiam, mas temiam a novidade. Mesmo assim, anotei mentalmente a receita, enquanto meus olhos pararam numa espécie de paneleiro com panelas e canecos de alumínio, com os amassadinhos que o tempo vai marcando, mas reluzindo feito um avião sob o sol. Dessa vez, me contive. Seja lá qual fosse a receita do brilho, nem em sonhos eu conseguiria tal feito.

Dona Nena foi, sem dúvida, uma dentre as mulheres que fez parte do meu rol de admiração. Ela era um desses quadros transbordantes de vida, sagacidade, e felicidade. Sim, ela era feliz!


Pude perceber a alegria genuína, corando suas faces, enquanto ela me mostrava sua casinha, como se ali fosse um palácio. Se a visita fosse de um prefeito ou de um príncipe, ela seria a mesma anfitriã amável e espontânea que me recebera.

Quando me deparo com uma residência, até em boa forma, mas entupida do relaxo da dona, penso em dona Nena. Quando, casualmente, topo com uma amiga saudável, bem vestida, com um bom emprego, e maldizendo a sorte, penso em dona Nena. Algumas mães saem dos trilhos, e buscam até psicólogos, para ajudá-las a controlar o único filho que têm. Os filhos de dona Nena, nos poucos minutos que estive lá, mantiveram-se quietinhos, sem interromper uma única vez meu tête-à-tête com sua mãe.

O relaxo vindo da preguiça, e as murmurações sem motivos, causam-me uma vontade intensa de perguntar: umas trouxinhas de roupas para lavar não seria a melhor das  terapias?…Com dona Nena funcionava!

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Direitos autorais da imagem de capa: Prometeus / 123RF Imagens

Vivemos em nossos próprios pedaços egoísticos.

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