Filha de Gisele depõe a psicólogos em audiência que julga Rosa Neto por feminicídio em São Paulo
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No terceiro dia de audiências do processo pela morte da soldado Gisele Alves Santana, foram ouvidos os pais, a filha e várias testemunhas; o réu, tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, segue preso e nega o crime, alegando suicídio. As audiências devem seguir até 3 de julho, incluindo depoimentos e o interrogatório d...
Resumo do conteúdo
O que se sabe
FAQ editorial
O terceiro dia de audiências do processo que apura a morte da soldado Gisele Alves Santana, de 32 anos, baleada na cabeça em fevereiro, teve como foco o depoimento dos pais da vítima e da filha da policial, de 7 anos, ouvida em procedimento especial.
O tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, viúvo de Gisele, é réu por feminicídio e fraude processual. Ele está preso desde 18 de março no Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte de São Paulo. Rosa Neto nega ter cometido o crime e sustenta que a companheira tirou a própria vida.
A previsão era de que 10 testemunhas fossem ouvidas ao longo do dia. Entre os depoentes estavam os pais de Gisele, Marinalva e José Simonal de Santana, o irmão da policial, Pedro, a filha da vítima, o ex-companheiro e pai da menina, policiais militares e uma perita criminal.
O primeiro a prestar depoimento, por volta das 10h, foi o pai de Gisele. Em seguida, o irmão dela também foi ouvido.
A filha de Gisele começou a falar em depoimento especial por volta das 11h20. A oitiva durou cerca de 30 minutos e foi conduzida por um psicólogo no setor especializado da Vecca, a Vara Especializada em Crimes contra a Criança e o Adolescente.
Antes do início do depoimento, a juíza responsável pelo caso, Michelle Carreiro, representantes da Promotoria, o assistente de acusação e o advogado de defesa conversaram com o psicólogo. As partes acompanharam as declarações da menina por vídeo e, após o início da escuta, encaminharam perguntas complementares por chat. As questões foram reelaboradas pelo psicólogo antes de serem apresentadas à criança.
Antes da sessão, a avó da menina afirmou que a neta chora diariamente por sentir falta da mãe: “Ela só dormia com a mãe agarrada”
Segundo Marinalva, a criança mora atualmente com os avós maternos e passa os fins de semana com o pai. De acordo com a família, a menina também demonstra preocupação quando percebe os avós tristes.
A quarta pessoa ouvida no dia foi a mãe de Gisele, Marinalva. Na sequência, prestou depoimento o ex-companheiro da PM, pai da filha da vítima.
Por volta das 13h, a audiência foi interrompida para o almoço. Os trabalhos foram retomados às 14h15, com o depoimento de um bombeiro que atendeu a ocorrência no dia da morte.

Direitos autorais: Reprodução / Arquivo Pessoal – Gisele Alves Santana
A sétima testemunha ouvida foi uma sargento da PM e amiga de Gisele. Depois, depôs um 1º tenente que também atendeu a ocorrência. Na ocasião, ele relatou ter comentado com um capitão que seria importante a presença de militares de patentes mais altas para conversar com Rosa Neto.
Os pais da soldado afirmaram esperar a expulsão do tenente-coronel da Polícia Militar. Emocionada, a mãe da vítima falou sobre o sofrimento da família.
“É muito sofrimento saber que um monstro desse, um monstro não, um verme estava dentro da minha própria casa. Comia, bebia dentro da minha casa e fez isso com a minha filha só porque ela falou que não queria mais ele e que iria embora”
Não havia previsão para o encerramento da audiência do dia, já que não existe limite de tempo para as declarações dos depoentes. As oitivas estão programadas para seguir até a próxima sexta-feira (3), de forma presencial, no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste da capital paulista.
Ao todo, 40 testemunhas, entre acusação e defesa, devem ser ouvidas durante a semana. Ao fim dessa etapa, Rosa Neto será interrogado. As audiências têm como objetivo produzir provas orais e esclarecer pontos do processo.
Na véspera, o segundo dia de audiências terminou com o depoimento de uma testemunha protegida e de outros nove depoentes, em cerca de cinco horas e meia. Policiais militares, incluindo amigas da vítima, bombeiros que atenderam a ocorrência e uma sargento da Corregedoria da PM foram ouvidos pela Justiça.
A 11ª testemunha prevista não compareceu por motivos pessoais. Não há informação se ela será ouvida em outra data.
Na segunda-feira (29), primeiro dia de audiência, duas testemunhas prestaram depoimento de forma remota por causa do jogo do Brasil na Copa do Mundo. Uma delas foi o delegado responsável pela investigação, Lucas de Souza Lopes, do 8º Distrito Policial, no Brás. A outra foi uma vizinha do casal, que acionou a Polícia Militar após ouvir o disparo.
Gisele foi atingida por um tiro na cabeça dentro do apartamento onde morava com o marido, no Brás, região central de São Paulo, em 18 de fevereiro. Ela foi socorrida em estado grave e levada ao Hospital das Clínicas, na capital. A morte foi constatada às 12h04 do mesmo dia.
Em depoimento, Rosa Neto afirmou que, no dia dos fatos, entrou no quarto de Gisele por volta das 7h para dizer que queria se separar. Segundo ele, depois da declaração, a esposa se levantou de forma “exaltada”, mandou que ele deixasse o quarto e bateu a porta. O PM alegou ter pegado uma toalha para tomar banho logo depois.
Ainda conforme a versão apresentada por Rosa Neto, cerca de um minuto após entrar no banho, ele ouviu um barulho que imaginou ser uma porta batendo. Ao abrir a porta, disse ter encontrado Gisele caída no chão, ferida na cabeça e segurando uma arma de fogo.
Ele afirmou ter acionado o resgate, a Polícia Militar e ligado para um amigo desembargador. À polícia, declarou que a esposa havia se suicidado.

Direitos autorais: Reprodução / Arquivo Pessoal – Instagram / TV Globo
A mãe da vítima afirmou à polícia que o relacionamento da filha com Rosa Neto era “extremamente conturbado”. Segundo ela, o genro era abusivo e muito violento. Marinalva relatou ainda que ele proibia Gisele de usar batom, salto alto e perfume, além de cobrar rigidamente a realização de tarefas domésticas.
Inicialmente, o caso foi registrado como suicídio consumado. No entanto, após o depoimento da mãe da vítima, a Polícia Civil alterou o registro para “morte suspeita”. A ocorrência foi investigada pelo 8º Distrito Policial e também é apurada pela Corregedoria da Polícia Militar.
O corpo de Gisele foi exumado em 6 de março e passou por nova perícia, além de exames complementares. O laudo apontou que o corpo da soldado apresentava “lesões contundentes” na face e na região cervical, provocadas por pontas de dedos, além de escoriação compatível com pressão de unhas. Um novo laudo pericial do Instituto Médico Legal (IML) concluiu que as marcas foram causadas por um adulto durante uma agressão.
Mensagens extraídas do celular do PM revelaram episódios de ofensas, humilhações e até violência física atribuídas a ele contra a esposa. Em um dos textos, Rosa Neto descreveu o que considerava um relacionamento ideal, elogiou a si mesmo e afirmou tratar a companheira como “todo macho alfa trata a sua esposa”.
Em entrevista à Record TV, no dia 11 de março, Rosa Neto negou ter matado a esposa e afirmou estar com a consciência tranquila.
“As pessoas têm inventado coisas, estou sendo atacado impiedosamente por inverdades. Não tenho nada para inventar ou mentir, trabalho com a verdade”
Sete dias depois da entrevista, ele foi preso e se tornou réu sob acusação de feminicídio no mesmo dia. Na ocasião, a Polícia Civil afirmou que os elementos periciais afastavam a versão de suicídio.
“As provas periciais e médico-legais, analisadas pela Polícia Técnico-Científica, indicam a inviabilidade da hipótese de suicídio, além de apontarem indícios de alteração do local do crime”
Se você presenciar um episódio de violência contra a mulher ou for vítima de um deles, denuncie o quanto antes através do número 180, que está disponível todos os dias, em qualquer horário, seja através de ligação ou dos aplicativos WhatsApp e Telegram.
O mesmo número também atende denúncias sobre pessoas idosas, pessoas com deficiência, pessoas em restrição de liberdade, comunidade LGBT e população em situação de rua. Além de denúncias de discriminação étnica ou racial e violência contra ciganos, quilombolas, indígenas e outras comunidades tradicionais.
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