Professor é espancado no metrô de SP e tem tímpano perfurado: "Ninguém ajudou"
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Professor é espancado no metrô de SP e tem tímpano perfurado: “Ninguém ajudou”

Professor relata agressão com ofensas homofóbicas na Linha 5-Lilás e contesta registro feito pela polícia

Avatar De Ana CarolineAna CarolineNotícias15/07/2026 às 10:11 15/07/2026 às 10:18

Professor É Espancado No Metrô De Sp E Tem Tímpano Perfurado: &Quot;Ninguém Ajudou&Quot;
Foto: Reprodução / Instagram - @carambarick

Um professor de 29 anos foi espancado por um passageiro na plataforma de uma estação da Linha 5-Lilás, na Zona Sul de São Paulo, no último sábado (11). A vítima afirma que o ataque teve motivação homofóbica.

Ricardo Akira Matsufuji relatou ao g1 que estava a caminho do trabalho quando foi atacado por um homem que, conforme seu depoimento, proferia ofensas homofóbicas e o acusava de ter feito uma gravação dele dentro do vagão. As agressões provocaram cortes e hematomas no rosto e na cabeça, uma perfuração no tímpano e uma fratura.

Além dos ferimentos físicos, Ricardo declarou que ainda lida com os impactos psicológicos causados pelo episódio. Como utiliza a Linha 5-Lilás para se deslocar até o trabalho, ele teme encontrar novamente o responsável pelo ataque.

“Eu fico pensando como vai ser pegar o metrô no próximo sábado para ir trabalhar. Estava até pensando se deveria tentar ir mais cedo, porque tenho medo de encontrar o homem de novo. Foi muito aleatório. Extremamente aleatório.”

Professor relata como a agressão começou

Ricardo estava em pé na região central do vagão e lia, pelo celular, o conteúdo de uma aula quando sentiu um chute na perna. O episódio ocorreu por volta das 7h40.

“Era uma pessoa totalmente desconhecida, nunca vi na minha vida. Algumas estações antes da que eu desceria, senti um chute na perna. Não foi forte, mas foi um chute. Tinha um homem que estava perto, pareceu que foi proposital […] Ele não teve reação nenhuma, sem contato visual”, disse.

Quando o trem chegou à estação em que desembarcaria, Ricardo contou que foi empurrado e caiu no chão assim que as portas da composição foram abertas. Na sequência, o passageiro, que utilizava uma máscara branca, avançou em sua direção.

“Eu não tenho certeza se caí no chão e vi ele vindo para cima de mim, mas lembro da sensação de olhar para trás e ver esse homem vindo. Também lembro dele me desafiando, falando: ‘Você pensa que pode me encarar?'”

De acordo com o professor, o agressor começou a desferir socos, bateu a cabeça dele contra o chão e depois o arremessou contra uma das paredes da estação.

“Ficou intercalando entre parede e chão. Toda vez que me socava, eu caía e tentava levantar. Tinha um grupo de pessoas afastado observando. Eu gritei por socorro, mas ninguém de fato ajudou.”

Durante o ataque, o homem também teria gritado insultos homofóbicos e acusado Ricardo de tê-lo filmado enquanto os dois ainda estavam dentro do vagão, segundo o relato da vítima.

Em determinado momento, Ricardo conseguiu se desvencilhar do agressor e correu em direção à escada rolante da estação, onde um grupo de pessoas observava o que estava acontecendo. Segundo o professor, ele somente recebeu auxílio ao chegar àquele ponto.

“Lembro que tinha um homem, uma mulher e outro homem. Todos apontavam para ele e falavam: ‘Ele é homofóbico, você viu as coisas que ele estava falando’. As testemunhas ouviram ele dizendo coisas homofóbicas.”

Ricardo afirmou que os agentes de segurança da Motiva, concessionária responsável pela Linha 5-Lilás, apareceram apenas depois do encerramento das agressões. A vítima e o suspeito foram encaminhados para salas diferentes.

Depois de ouvirem as partes envolvidas e as testemunhas, os funcionários acionaram a Polícia Militar e conduziram Ricardo e o agressor até a UPA Vila Mariana.

“Levaram nós dois no mesmo carro do metrô para a UPA. Só tinha um veículo. Me colocaram na frente e ele foi atrás. Tinha uma divisória branca opaca, mas dava para ouvir claramente o homem lá atrás.”

Ricardo permaneceu durante algumas horas em observação na unidade de pronto atendimento, onde recebeu atendimento médico e foi submetido a um exame de raio-X.

“O que me incomodou na UPA foi o fato de o médico mal ter me examinado. Ele só pegou uma lanterna, olhou meu olho e pediu um raio-X. Depois disse que eu não tinha nenhuma fratura. Mais tarde descobri que isso era mentira: eu tinha uma fratura. Ele falou que não havia tomógrafo na unidade e que não via necessidade de me encaminhar para outro hospital.”

Registro do caso na delegacia

Ao chegar ao 27º Distrito Policial, onde o boletim de ocorrência foi registrado, Ricardo afirmou que o agressor já havia saído da unidade. Os funcionários da concessionária também não estavam mais no local.

Segundo o professor, o homem chegou a ser encaminhado à delegacia, mas foi liberado após a formalização da ocorrência. Ricardo declarou que não recebeu acesso ao documento e pretende apresentar uma representação criminal para que o episódio seja devidamente investigado.

Ainda conforme o relato da vítima, a polícia teria se recusado inicialmente a registrar o caso como homofobia. Ricardo também foi classificado no documento como “vítima/autor”, uma vez que a mão do agressor ficou ferida durante o ataque.

“Com a escrevente foi complicado, porque tive que pedir umas três vezes para constar a palavra ‘homofobia’ no registro.”

O que informou a concessionária

Em nota, a Motiva lamentou o ocorrido e repudiou “de forma veemente qualquer ato de violência, discriminação ou intolerância”. A concessionária declarou ter registrado uma ocorrência envolvendo um desentendimento entre passageiros no interior de uma composição da Linha 5-Lilás.

De acordo com a empresa, assim que o operador recebeu a informação sobre o episódio, solicitou que o trem fosse retido para permitir a atuação das equipes de atendimento e de segurança.

A Motiva acrescentou que, ao chegarem à estação, os agentes encontraram um dos passageiros com escoriações no rosto. A equipe prestou os primeiros socorros e encaminhou o homem à UPA Vila Mariana e, posteriormente, ao 27º Distrito Policial para que a ocorrência fosse registrada.

A concessionária afirmou que continua à disposição das autoridades para contribuir com a investigação. A empresa também declarou que seus profissionais são treinados para acolher vítimas e oferecer o suporte necessário em situações dessa natureza.

A Motiva orientou ainda que passageiros envolvidos em ocorrências dentro dos trens utilizem os intercomunicadores instalados nas composições para solicitar ajuda imediata. Segundo a empresa, esse procedimento permite que as equipes atuem de maneira mais rápida.

Secretaria de Segurança foi questionada

A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP) foi procurada pelo g1 e questionada sobre a razão de Ricardo ter sido classificado simultaneamente como vítima e autor da ocorrência. A pasta também foi perguntada sobre o motivo de o caso não ter sido registrado como homofobia.

Até a última atualização da reportagem, a Secretaria da Segurança Pública ainda não havia respondido aos questionamentos.
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